sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Cyberpunk é agora

Eu lembro de uma vez vários anos atrás, enquanto esperava um amigo descer do prédio, ver um carro da Fedex estacionar alguns metros de mim. Ok. Eis que surge um outro carro, da UPS, e estaciona do meu outro lado. Ainda consigo ver o tiroteio que aconteceu (na minha imaginação, é claro).


O conceito de cyberpunk é discutível. O movimento surgiu lá pelos anos 60 e 70 e mistura ideias anarquistas do punk com os avanços tecnológicos (e sociais) que começavam na época. Em espírito, o cyberpunk fala sobre a vida valer pouco, sobre megacorporações, sobre ciberespaço e alta tecnologia, sobre a interface humano-máquina.

Dizem que o cyberpunk morreu. Veio forte com Blade Runners, Neuromancers e afins. Ficou forte com os jogos de RPG (GURPS, Cyberpunk 2020, Shadowrun) e de video game (Deus Ex, Syndicate e o próprio Shadowrun). Mas a literatura aos poucos foi se tornando menos presente. Bom, mais ou menos. O romance Snowcrash do Neil Stephenson (onde o termo ‘metaverse’ apareceu pela primeira vez como uma primeira versão imaginada do que se tornaria o ‘jogo’ Second Life) foi publicado em 1992, mas só foi publicado no Brasil pela Aleph (como Nevasca) em 2008. E não termina por aí. Editoras como a Tarja e a Draco tem publicado romances e antologias com foco no Cyberpunk. Estúdios lá fora continuam lançando jogos de sucesso como Deus Ex: Human Revolution, Shadowrun Returns e Satellite Reign. E Watch Dogs? Será que não tem um pé no cyberpunk?

“Mas, Beraldo, Watch Dogs não se passa no tempo atual?”

Pois então. (Para quem não conhece) Watch Dogs é um jogo onde o protagonista é um hacker que, através do seu celular, consegue manipular tudo quanto é tipo de coisa no seu ambiente: sinais de trânsito, outros celulares, sensores, etc. O jogo gira em torno do protagonista vencer esses “quebra-cabeças” usando essa ferramenta. A história se passa em Chicago, mas é uma Chicago um pouco diferente, que possui uma espécie de super computador integrando todos os seus sistemas, para evitar um novo blackout como o que aconteceu (na vida real) em 2003.

Mas Watch Dogs tem uma forte integração homem-máquina, tem um personagem relegado aos guetos e ao anonimato enfrentando gente graúda. Tem até um supercomputador! O fato de se passar nos “dias atuais” torna ele menos cyberpunk?

Posso te convencer? Então vamos a alguns fatos sobre a vida real.

No último dia 10 de Outubro aconteceu a comemoração de 1 ano do anúncio do jogo Star Citizen, do famoso (sim, meu ídolo!) Chris Roberts. Star Citizen é hoje o projeto de jogo com o maior financiamento coletivo da história (mais de 21 milhões de dólares até agora). Por sí só isso já um elemento interessante do futuro: o “povo” dizendo o que quer e investindo para tornar possível um projeto. Uma resistência às grandes corporações que dominam a publicação de jogos no mundo? Mas isso é o de menos. O evento batizado CitizenCon teve alguns poucos convidados e passou ao vivo por um canal do Youtube. Bom, mais ou menos. Em torno dos 40 minutos do evento algumas pessoas começaram a cantar parabéns pra você. Então, subitamente, o canal saiu do ar.

Você sabia que a música “Happy Birthday to you” (“Parabéns pra você” em inglês) pertence à Warner Bros e que se você usá-la em apresentações ao vivo ou em filmes sem pagar algo em torno de $10.000 você leva um belo de um processo?

Você sabia que companhias de fastfood enviam “lanchonetes móveis” (basicamente contêineres) para locais onde o exército americano ocupou para que seus soldados se sintam em casa? Já imaginou uma base militar americana cheia de logos do Pizza Hut, Burger King, etc? É só passar no Afeganistão. Em um projeto recente, o ex-militar Stuart Johnson (financiado pelo Kickstarter, diga-se de passagem) organizou uma série de fotos e relatos que serão publicados em um livro intitulado Fast Food Infantry.

Agora você provavelmente já ouviu falar da Disney, certo? E sabia que ela comprou não só a Marvel (responsável por heróis como X-Men, Vingadores, Homem-aranha, etc) como a LucasFilms (Star Wars)? Sabia que ela é dona do Club Penguin, o maior e mais bem sucedido jogo online para crianças? A Disney é basicamente uma megacorporação do entretenimento, detendo o controle de diversas das mais valiosas propriedades intelectuais do mundo e os recursos para produzir e publicar filmes,desenhos animados, seriados, música, revistas, video games, brinquedos, etc. Nem precisa mencionar os hotéis e parques de diversões pelo mundo. Podemos chamar de megacorporação?


Estou exagerando? E a Blackwater? Conhece? A Blackwater (agora conhecida como Academi) é a maior “compania militar privada” do mundo. Estão presentes do Iraque desde o início da guerra, onde se envolveram em questões complicadas, como a morte de diversos civis, documentado em vídeos e em processos criminais que não levaram a lugar algum. Isso porque, pelo contrato que fizeram com o governo dos EUA (seu principal contratante), seus ‘funcionários’ (ex-forças especiais de vários países) não podem ser processados por matar ou ferir pessoas enquanto atuando sob contrato. Hoje a Academi (nome novo para passar uma imagem menos agressiva) não só atua como escolta de oficiais do exército americano e funcionários de empresas privadas no Iraque, mas também treina militares e policiais norte americanos e iraquianos. Dá uma olhada na parte de empregos do site deles. Entre as vagas inclui uma de “Especialista de Segurança/Atirador defensivo” para atuar no Afeganistão. Um dos pré-requisitos da vaga? Ser treinado como atirador de elite. Quer mais? A Blackwater tem uma divisão de pesquisa militar que já produziu (e vende) um sistema para mísses teleguiados e um veículo blindado.

Nem preciso falar sobre a Agência de Segurança Nacional norte americana fuçando os emails da Dilma, da Petrobrás e afins, né? Sei que tem muita gente fazendo piada, mas o assunto é sério. Ou você acha que a NSA gastaria tanto recurso por besteira?

Falando nisso, Snowden e Wikileaks são outro exemplo. E, claro, a Anonymous, a (pseudo) organização de ‘hackers do bem’ que atuam mundialmente fazendo de tudo, desde expor os dados pessoais de policiais filmados/fotografados forjando evidências ou agredindo pessoas até derrubar os servidores do Pentágono. Isso já tem até nome: hacktivism.

Entrando na virtualidade, vamos falar de Eve Online? Esse é um jogo lançado em 2003 pela islandesa CCP. A mesma CCP, diga-se de passagem, que eventualmente comprou a White Wolf, famosa editora norte americana de livros de RPG (Vampire, Werewolf, Mage, Exalted, etc). Dez anos depois do lançamento, Eve não para de aparecer nos jornais (inclusive vez ou outra em jornais de grande circulação, na seção de economia) quando seus jogadores aprontam mais algum esquema do tipo pirâmide ou golpes multimilionários. Sim, multimilionários, porque você pode vender itens e tempo de jogo do Eve e fazer uma pequena fortuna (em um assunto relacionado, existem empresas especializadas no chamado gold farming, onde funcionários são pagos alguns trocados para jogar jogos online, acumular dinheiro virtual e vendê-lo por dinheiro de verdade a jogadores). 

Eve é um caso em particular muito interessante. Há diversos casos que unem o real e o virtual, como quando um grupo descobriu o endereço do ‘piloto’ de uma das naves mais poderosas do grupo inimigo e, logo antes de um ataque no mundo virtual, cortou o fornecimento de luz da casa do ‘piloto’, basicamente tirando a tal super nave do jogo. Ou quando um jogador, membro do conselho eleito pela comunidade, postou que “achamos que vamos ser atacados em breve.” No caso o ataque não era no Eve. Ele morreu no ataque à embaixada americana na Líbia em 2012.

Eve também tem casos que soam como puro cyberpunk, como quando um jogador, membro de uma corporação X, infiltrou-se na corporação rival durante todo um ano até chegar ao poder e assassinar os personagens de todos os líderes inimigos (inclusive destruindo seus implantes cibernéticos, que guardavam suas memórias/habilidades), ou quando uma das maiores alianças do jogo foi roubada e desfeita após seu líder trocar de lado, juntando-se a uma aliança inimiga. O efeito foi caos completo quando um terço do mapa do jogo virou terra de ninguém.

Ciborgues? Conheço duas pessoas que têm implantes para aumentar a audição. Um corredor sem pernas foi impedido de correr nas Paraolimpíadas (e nas Olimpíadas) porque suas próteses são consideradas superiores às pernas humanas. Um homem substitui o olho de vidro por uma câmera sem fio. A DARPA desenvolve um robô independente para o exército americano. Um jogo online ajuda a desvendar os mistérios da AIDS em apenas 10 dias, enquanto a World Health Organization usa um bug de outro jogo de entretenimento para analisar casos reais de epidemia. Já existem jogos eletrônicos controlados pela mente e pessoas controlando os aparelhos eletrônicos da casa através de implantes. Uma empresa privada levou o homem ao espaço (mais de uma vez) e a Google (outra mega corporação) está testando um carro que dirige sozinho.

E não termina por aí. Tudo hoje tem um computador embutido, o bluetooth está conectando o mundo, cantores mortos (ou que jamais existiram) fazem turnês como hologramas e tudo, absolutamente tudo, está na internet.

Não, o cyberpunk não morreu. O ‘problema’ é que ele já chegou.

Links
Fold-it (jogo online para ajudar na pesquisa de proteínas)
Cyborg America (artigo sobre ciborgues de fundo de quintal)

3 comentários:

  1. J. M. Beraldo, você tem alguma matéria tratando sobre o steampunk?

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  2. Olá, Victor. Tudo bem?

    Ainda não, mas já adicionei à lista de assuntos a tratar ;)

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