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terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Conto: Ecocracia

Hoje é dia de conto de graça!

Alguns meses atrás fiz um teste: coloquei um conto como ebook na Amazon para ver se ele vendia se eu simplesmente o largasse lá (comparado à venda de ebooks de RPG, que acontece por conta própria mesmo sem propaganda). O resultado? Vendas patéticas apesar do preço baixíssimo.

Findo o teste, eis aqui o conto gratuito para todos.

Ecocracia é uma sátira sobre a sociedade e sobre o ser humano que nunca está satisfeito com o que tem. Em uma versão diferente do mundo, o Brasil é governado por radicais ecológicos.

Divirtam-se!

-

A fumaça do escapamento de um ônibus super-lotado misturou-se à imundice que cobria as ruas da cidade. Nem mesmo os pneus carecas do ônibus conseguiam revelar o asfalto imerso em lama. Onde começava a calçada, havia uma barreira de restos da presença humana em uma cidade sobrecarregada de habitantes e industrialização.
Ninguém dava a mínima. Pessoas iam e vinham, seguindo suas vidas, ignorando os indigentes revirando o lixo enquanto outros mijavam e escarravam em plena luz do dia.
Estavam tão absorvidos por suas próprias vidas que não perceberam a van que estacionou bem no centro da cidade. A primeira vista, não era diferente de qualquer outro dos inúmeros veículos velhos que rodavam pela cidade. A pintura externa, azul, estava descascando. Flores e símbolos da paz haviam sido pintados nas laterais e no teto da van.
Um jovem, passando por perto, olhou para dentro do carro, curioso, e percebeu que não havia ninguém no assento do motorista.
Foi quando a bomba detonou e Mumbai voltou a ser uma floresta tropical.


*


Geraldo jogou o jornal longe, tão enojado pela notícia quanto pelo papel reciclado e a tinta orgânica usados nele.
- Gabeira filho da puta. Vai foder com a nossa vida.
- Não fala assim do presidente. Alguém pode ouvir.
- Que se foda, - disse Geraldo, levantando-se e pegando o jornal do chão quase por reflexo. Ficou irritado pelo condicionamento que o impedia de deixar sujeira no chão.
Marco o observou em silêncio, um sorriso no canto do rosto. O amigo já devia estar acostumado. Geraldo sempre tinha esses ataques, especialmente ao ler alguma notícia sobre os planos do governo.
- O que foi dessa vez?
- Essa merda de plano América Verde, - disse ele, batendo com as costas da mão no jornal para dar mais ênfase. - Parece que o Gabeira fechou acordo com o Al Gore e vão mesmo tentar forçar a mão com os outros países. Vai dar merda, escreve o que eu digo.
Marco levantou-se, movendo a persiana para olhar a rua. Parecia preocupado.
- Olha, cara... Se der merda, vai ser pros outros. Duvido que alguém consiga resistir a Brasil e EUA juntos. Especialmente porque o Partido Verde é bem cabeça dura.
Era de se imaginar. Depois de anos tentando ter uma voz ativa nesse e em outros países, ambientalistas e ditos eco-políticos tinham conseguido o que queriam graças a uma série de acidentes graves que, diziam alguns, só podia ser parte de uma conspiração global. No Brasil, precisou a usina nuclear de Angra I vazar para que os verdes ganhassem os seguidores que precisavam.
Agora estavam no poder havia duas décadas e as mudanças eram cada vez mais radicais.
- Sinto saudades do cheiro de gasolina, da fumaça.
Marco riu, soltando a persiana e indo até a cafeteira. - Você tá maluco.
- Olha, eu sei que fazia mal. Eu sei que era perigoso, mas, porra, precisava ser tão radical assim? Tratar fumantes como drogados? Tornar ilegais os motores à combustão? E o pior: Sem ter um plano viável para substituir tudo!
O cheiro do café desviou a atenção dos dois. Marco serviu duas canecas, passando uma para Geraldo.
- Cara, eles implantaram transportes públicos.
- Poucos e mal cuidados! - esbravejou Geraldo, quase lançando café quente por toda a cozinha. - Devem ter desviado verba pra alguma plantação secreta de maconha!
Marco provou o café, escondendo um sorriso com a caneca.
- Eles legalizaram a maconha.
- Bando de filhos da puta!
- Cara, isso tem mais de dez anos.
- Foda-se. Estou puto. Xingo quem e o que eu quiser.
Foi quando Geraldo percebeu a arte na caneca: uma árvore bem verde.
- Perdi a vontade.
Deixou a caneca sobre o balcão e começou a andar de um lado para o outro. Queria sair, dar uma volta e respirar um ar fresco. Parou, percebendo no que pensou. Ar fresco é o cacete! Quero ar poluído mesmo! Deu um tapa numa revista de decoração deixada para trás pela ex-mulher. Ela também optou pelo verde: o abandonou por um botânico.
- Sabe o que me deixa mais puto? É que todo mundo sabe que é o Brasil quem financia esses ecoterroristas. Cara, transformaram Mumbai numa floresta tropical! Com uma porra de uma bomba! E ninguém fez nada!
Marco deu de ombros, soprando o café ainda quente. - Não existem provas.
- Ah, claro. Qual é o governo verde com domínio de tecnologia genética vegetal? A China é que não é.
- O pior é que ouvi rumores de que o Irã não vai voltar atrás no projeto de energia nuclear.
- Era só o que me faltava. Logo, logo vai aparecer uma floresta no meio do deserto.
Derrotado, Geraldo deixou-se cair no sofá. Pegou o controle remoto e ligou a televisão. A transmissão era perfeita e gratuita, assim com quase tudo mais no Brasil. Na televisão, um documentário sobre a implantação de ambientes ecológicos na Suécia, sob o auxílio do governo brasileiro. Geraldo suspirou.
- Eu sinto saudades de pagar a conta de luz.


*


Para quem viveu a vida pré-Angra I, a São Paulo de hoje era uma outra realidade, uma mistura de verde e espelhos. Mas não simplesmente espelhos decorando edifícios comerciais, e sim complexos mosaicos coletores de luz solar, que mantinham boa parte da cidade e seus transportes abastecidos constante e gratuitamente. As coberturas do arranha-céus, assim como os telhados das casas, eram verdes, resfriando o ambiente e produzindo comida para os habitantes. O céu, incrível de acreditar, era sempre azul. O ar era perfeitamente respirável, idealmente úmido para o ser humano.
Não era perfeito, claro. O Brasil de hoje era verde e havia quase que totalmente erradicado a poluição, mas o brasileiro ainda era brasileiro. A sujeira do governo persistia apesar dos mais intensos programas de higienização e reciclagem do país.
Desvios de verba, superfaturamento e caixa dois ainda existiam. Para muitos, o crime ainda compensava, apesar da população ter muitos recursos gratuitos.
Com o fim da apresentação, as janelas voltaram a tornar-se transparentes, iluminando a sala de reunião. O senador inclinou-se para trás, retirando os óculos e colocando-os sobre a mesa.
- Esse parece um custo bem alto para produzir um artefato tão perigoso.
- É exatamente devido ao perigo que o preço é alto.
O senador sorriu, balançando a cabeça com uma expressão de ironia.
- Compreendo que essa seja uma questão de segurança nacional... internacional, me atrevo a dizer. Mas é um custo muito alto para o governo.
O empresário aproximou-se, colocando as mãos sobre o encosto da cadeira.
- O senhor compreende que, pelo decreto assinado pelo presidente, o número de ogivas não pode ser reduzido.
- O número, não. Mas o custo...
- Seria impossível, - explicou o empresário, balançando a cabeça. - Esse tipo de mecanismo é muito delicado. Necessita dos elementos certos na proporção certa.
O senador voltou a sorrir.
- Olha, meu amigo, eu estou na política há anos. Eu entendo como funcionam esses projetos. Vocês colocam um a mais em tudo. Uma ‘gordurinha’, não é mesmo? Tenho certeza que você pode enxugar mais os custos desse projeto.
O empresário limpou a garganta e voltou a andar pela sala. Olhou os dois cientistas que  acompanharam na reunião, depois sua secretária. Fez um sinal com a cabeça para que saíssem. Um dos cientistas recusou-se a levantar, olhando horrorizado para os demais presentes.
- Isso é um absurdo.
O senador continuava a rir, brincando com sua gravata. O empresário precisou enfativar que queria ficar sozinho balançando a cabeça na direção da porta. Por fim o cientista levantou-se e saiu, batendo a porta atrás dele.
Passaram-se alguns segundos de silêncio antes do empresário voltar a dirigir-se ao senador.
- Quanto?
- Cinco porcento.
- E o que acontece com esse dinheiro?
- Três porcento para mim. O resto fica a seu critério.
- Senador... isso é muito.
- Eu me empenhei bastante para conseguir essa concessão no nome da sua empresa. Acho que mereço um agrado.
- Não... me refiro ao corte de verba. Cinco porcento... Como vou reduzir o custo do projeto? Já é tarde para aumentar o valor.
O sorriso ainda no rosto, o senador se levantou. Pegou os óculos e a pasta e começou a andar na direção da porta.
- Ora, eu tenho certeza que você vai dar um jeitinho.


*


A estação de metrô estava lotada como sempre. Talvez pior. A polícia havia encontrado um sujeito fumando no banheiro público. O cara tentou escapar. Preferiu se jogar na frente do trem ao invés de ser levado a um centro de desintoxicação. Morreu com o gosto de fumaça na boca.
Normalmente esses sujeitos se restringiam aos guetos, a lugares perto do centro como a infame Fumolândia, largados nas ruas até que a polícia mandasse alguém para limpar o lugar. Roubo para conseguir dinheiro para cigarros era comum por lá. Por que não legalizar essa merda logo? Deixe que os idiotas se matem por conta própria!
Geraldo não podia deixar de imaginar como seria se o Partido Verde não tivesse ganho tanto poder. Imagine se você não precisasse de uma permissão especial para ter um carro. Ao invés de ter de andar ou usar bicicleta, poderia simplesmente relaxar atrás do volante e ir aonde quiser na cidade. Não precisaria pegar filas no metrô, ônibus e maglevs. Mais ainda! Não existiria esse limite ridículo de velocidade. Motores à combustão são tão mais potentes que você conseguiria ir de uma ponta a outra da cidade em minutos!
Uma senhora colocou a ponta do guarda-chuva nas suas costas, forçando-o a esquecer seus devaneios e andar. A massa se moveu na direção dos carros do metrô como gado pronto para o abate.
Geraldo não pode deixar de pensar: Será que vão tornar vegetarianismo obrigatório?
Com um suspiro, tomou posição perto da porta, segurando-se em uma das barras de suporte. Claro que não havia lugar para sentar. Deixou-se levar pelo movimento do metrô, que fazia a multidão apertada mover-se em conjunto, como algas na maré.
O gosto do quiche de algas processadas que foi obrigado a comer no almoço voltou à sua boca e sentiu um calafrio percorrer o corpo. O que não daria por um bom bife sangrando, cheio de alho frito. Lembrou da época em que existiam churrascarias rodízio, antes da população, manipulada pelo governo, resolvesse se tornar saudável, levando esses restaurantes à falência.
O metrô parou na estação Campo Belo e uma pequena multidão saiu. Um homem entrou, esbarrando em todos, quase caindo. Olhou para Geraldo, murmurando uma desculpa e agarrou-se em outra barra, não muito longe.
A mão do sujeito tremia. Ele parecia pálido. Olhava de um lado para o outro, enquanto a outra mão mexia em algo no bolso. Geraldo teve a impressão de ver um cilindro branco com ponta bege. Quando percebeu, o sujeito o estava encarando. Ele deve ter ouvido falar sobre o que aconteceu com o outro fumante.
Geraldo desviou o olhar, fingindo ler as propagandas nas paredes do metrô. Interessou-se bastante pelo mapa das estações da linha lilás. Ele sabia tudo de cor, mas subitamente lhe pareceu boa ideia ter certeza de que ainda era a mesma sequência. Geraldo foi contando uma por uma, na esperança de que o fumante o esquecesse.
Mas não funcionou. Olhando de rabo de olho percebeu-o ainda o encarando.
Respirou fundo, apesar da falta de ar no metrô lotado, e tentou pensar em coisas boas até chegar a sua estação.
Saltou em Santa Cruz sem pensar duas vezes. Apressou o passo, tentando perder-se no meio da multidão que seguia para as ruas ou para o metrô da linha azul. Pegou as escadas e emergiu no shopping. Tinha planejado comprar alguma comida antes de ir para casa, mas nem pensou no assunto. Foi para a rua e tentou desaparecer na primeira esquina.
Geraldo se sentiu culpado. O quanto da sua reação era resultado de anos de doutrina, influenciado por programas de televisão e comerciais, ou o programa de ensino no colégio onde estudou? Seu pai tinha sido fumante, antes de desistir devido aos riscos de câncer. Morreu em um deslizamento de terra em uma pousada ecológica na serra do Rio de Janeiro.
- Ei, tem fogo?
Geraldo engoliu em seco. Era algum tipo de piada? Ninguém fazia uma pergunta dessas, a não ser que estivesse louco ou drogado.
Olhando por cima do ombro, Geraldo viu o fumante do metrô caminhando pouco atrás dele. Ele tinha um cigarro na boca, ainda apagado. Não havia ninguém por perto, certamente não a polícia.
Virando-se para a frente, Geraldo apertou o passo. O fumante o chamou, mas Geraldo apenas acelerou. Quando se deu conta, estava correndo quarteirão abaixo.


*


Se obras feitas às claras sofriam de desvio de verbas, imagine o que acontecia com projetos secretos, destinados ao conhecimento de poucos como o presidente, alguns militares da alta cúpula e políticos seletos.
Não era à toa que mesmo os ecoterroristas na folha de pagamento do governo brasileiro eram corruptíveis.
Com o pagamento atrasado, recursos escassos e não raro de baixa qualidade, arriscar a vida para fazer seu trabalho e ainda sustentar a família não era nada fácil. Não era à toa que, quando em operação em países estrangeiros, em condições de guerrilha, era normal que algum equipamento se perdesse, acidentalmente indo parar nas mãos de criminosos com os recursos necessários para ‘liberá-los’.
- Essa é a bomba? - disse o homem de barba, um sotaque pesado em seu inglês.
- É isso ai. Eden, para os íntimos.
O homem ignorou a piada do soldado. Observava a ogiva com admiração resguardada.
- Pode tocar, - disse o soldado, um sorrido irônico no rosto.
O comprador olhou o soldado, e então os outros na tenda de campo. Lambendo os lábios, tocou a superfície de metal da bomba. Os dedos seguiram os traços do símbolo da paz pintado na cúpula. Ele murmurou uma prece de agradecimento.


*


Geraldo arrancou uma erva daninha e a arremessou do alto do prédio para a rua. Um ato infantil de rebelião contra o sistema. Quero ver alguém reclamar.
Era sua vez de checar a plantação sobre o edifício onde morava. O governo incentivou a construção de telhados verdes em casas e edifícios, mas lógico que deu pouco treinamento ou explicação sobre o que era ou não era para fazer. Os apartamentos abaixo dos telhados verdes acabaram sofrendo de infiltração, rachaduras e goteiras. Especialmente quanto chovia. Considerando que era São Paulo, chovia pra cacete.
- Foi meio assustador, - confessou Geraldo, puxando o toldo para cobrir a plantação da tempestade que se aproximava. - Eu pensei que ele ia me atacar. Sei lá.
Marco ajudou o amigo, ignorando a chuva que já começava a cair. Tinha permanecido em silêncio todo o tempo em que Geraldo contava o que aconteceu dois dias antes.
- Sério, cara. Não quero me envolver com essas coisas, mesmo que, no fundo, eu não ache que fumante é tão mal assim. Tipo, o cara é viciado, né? Não é culpa dele.
O telhado coberto, puxaram as presilhas, para o vento não descobrir nada. Geraldo foi checar as canaletas que colheriam a água da chuva para uso dos moradores do prédio.
Marco encostou-se em uma das paredes. Puxou um morango da moita e o examinou.
- Sabe que eu não lembro mais como era o gosto do morango antigamente.
Geraldo franziu a testa, se aproximando do amigo.
- O que diabos isso tem a ver com o que eu estou dizendo?
Marco sorriu sem humor e jogou o morango para Geraldo.
- Não acho que fumantes são o problema. Cada um deveria ter o direito de escolher.
- Pensei que você fosse o defensor do governo.
- Não sou defensor. Eu só sou... cuidadoso. Nunca se sabe quem pode estar ouvindo.
- Ih, pronto. Andou lendo teorias da conspiração na internet de novo?
Marco se afastou da parede e começou a caminhar por entre as hortas, os olhos atentos na grama molhada em que pisava.
- Será que um governo que impõe regras, que financia ecoterroristas, não ficaria de olho nos seus cidadãos?
Geraldo mordeu o morango, dando de ombros. Assim como quase todas as frutas e legumes plantados em São Paulo, era de uma espécie desenvolvida no Brasil, feita para resistir às intemperes e fornecer o máximo possível de vitaminas. Geraldo tentou lembrar se o gosto era diferente quando ele era criança, mas não conseguiu.
- O problema é que tiraram nossa liberdade de escolha.
- É mais do que isso...
Marco suspirou, então se aproximou novamente do amigo.
- Eu preciso te mostrar uma coisa, mas você vai prometer que não vai falar pra ninguém.
Geraldo franziu a testa novamente. Marco estava agindo de forma estranha. Naquela situação via pouca alternativa se não concordar com a cabeça.
Desceram as escadas e saíram para a rua.


*


Arrancaram da fila uma senhora. Ela gritava que não havia comido fruta alguma, mas os seguranças do aeroporto ignoravam. Ela sumiu em uma salinha reservada a interrogatórios e provavelmente só sairia de lá depois de defecar qualquer semente estrangeira que pudesse estar trazendo em seu corpo.
O agente havia sido avisado do risco e preparou-se adequadamente. Por uma semana consumiu apenas comidas e bebidas que não fossem perceptíveis aos detectores do Aeroporto Internacional de Guarulhos.
Apesar da tensão, saiu-se bem. Passaporte checado, visto validado. Foi liberado, assim como sua pouca bagagem. Não trouxera absolutamente nada de ilegal que pudesse causá-lo problemas na alfândega.
Do lado de fora, seu contato o aguardava. Abraçaram-se como velhos amigos, apesar de nunca terem se visto afora por fotos.
Partiram imediatamente para Santos. O contêiner com a bomba já devia ter chegado.


*


Geraldo travou assim que sentiu o cheiro de fumaça permeando o quarto. Marco teve de colocar as mãos em suas costas e fazer pressão para que ele entrasse.
- Vamos. Estamos seguros aqui.
Engolindo em seco, Geraldo deu um passo para dentro. Uma névoa tênue cobria tudo na altura de sua cabeça. Era o resultado de meia dúzia de pessoas, homens e mulheres, jovens e velhos, fumando cigarros e charutos. Olharam em sua direção, sem muito interesse. Cumprimentaram Marco com a cabeça e voltaram a seus afazeres. Junto aos fumantes estava outra meia dúzia de pessoas igualmente variadas. Alguns estavam conversando em tom baixo, outros faziam anotações em cadernos e examinavam mapas, enquanto alguns poucos simplesmente liam livros.
Geraldo percebeu um som repetitivo, como um bater de martelo em algo molhado. Viu o que parecia ser um motor ligado por fios expostos a uma série de monitores antigos. O motor expelia fumaça negra, que se misturava a dos fumantes. Geraldo olhou para o teto, esperando as sirenes tocarem ou a polícia arrombar o lugar.
- Calma, cara. Desativamos os sensores de fumaça faz tempo.
- O que é esse lugar.
- A resistência!
- Marco gosta de ser dramático. Somos apenas amigos com interesses em comum.
Geraldo virou-se na direção da voz. Era alguém que não havia percebido antes. A mulher tinha o cabelo crespo preso por um laço que mais parecia uma raiz trançada, todo armado para cima. Isso dava a ele uma forma meio esférico. Mechas tinham sido pintadas em tons de verde, deixando o cabelo com uma aparência de arbusto. Uma grande flor de pétalas brancas completava o ar verde.
Geraldo odiou a mulher logo de cara.
- Você parece meio verde para esse ambiente.
Ela sorriu, e Geraldo percebeu que os lábios eram pintados com algum batom à base de clorofila.
- Muito pelo contrário. O que temos em comum é crer que o governo está tomando decisões radicais demais, tirando nossa liberdade.
- Mas você apoia as medidas verdes.
- Até certo ponto, sim. O poder certo nas mãos erradas.
- Então vocês pretendem fazer uma revolução? Derrubar o governo?
A mulher riu.
- Algo menos dramático, eu creio. - Estendeu a mão para Geraldo. - Flora.
Geraldo encarou a mulher sem apertar sua mão. - Isso é algum tipo de piada?
- Dos meus pais, provavelmente.
Levou mais alguns instantes para Geraldo aceitar o fato e apertar a mão da mulher. Ainda assim não conseguia se sentir confortável com a situação.
- Geraldo, - ele finalmente disse. - Amigo do Marco.
- Ele me falou de você.
Geraldo olhou por cima do ombro na direção do amigo, que estava conversando com um sujeito de cabelos compridos fumando um cigarro marrom. Começou a questionar se realmente sabia algo sobre Marco. Amigos desde a faculdade e nunca imaginou esse tipo de comportamento.
- É à diesel.
A sobrancelha arqueada deve ter explicado que Geraldo não sabia do que ela falava. Flora sorriu.
- Aquele motor. Ele gera energia para tudo nessa casa.
- Por que se a energia é gratuita?
- Porque tiramos tudo feito pelo governo daqui de dentro.
- Rebeldia?
- Precaução. O governo instala escutas e rastreadores em tudo o que pode.
Geraldo não pode evitar um sorriso sarcástico.
- Tipo em morangos.
- Morangos, uvas, arroz. Você sabia que o governo possui equipamento que rastreia emissões vindas do consumo desses produtos transgênicos?
- Oi? Rastreia o quê?
- Emissões. Gases naturais. Eles sabem o que você comeu e, como todo mundo come essas porcarias, eles sabem onde todos estão. O... tempo... todo!
Geraldo piscou duas vezes, depois uma terceira vez, só para ter certeza de que não estava sonhando. Ela estava dizendo que o governo andava rastreando o peido das pessoas?
- Impressionante, não? - disse Flora, com um sorriso de quem acaba de revelar o maior segredo do universo.
- E como, - respondeu Geraldo, como quem tenta procurar a saída mais próxima daquele hospício.
- Vem, - disse Flora, pegando-o pela mão. Infelizmente ela não parecia estar seguindo na direção da porta, mas sim do tal motor. - Quero te mostrar uma coisa.
Na medida em que se aproximavam do motor, a fumaça tornava-se mais densa e oleosa. Estava quente ali e difícil de respirar. Geraldo não pode evitar uma tosse, pensando que nunca mais ia dizer que queria respirar fumaça. Flora parecia pouco incomodada.
- Ninguém percebe essa fumaceira lá fora?
- Instalamos filtros em todas as saídas. O que não é filtrado é expelido para o esgoto e acaba desaparecendo sem rastros. Somos indetectáveis aqui.
Geraldo passou as costas da mão na testa, limpando o suor que brotou quase que de imediato. Considerando o calor que aquele lugar estava gerando, era difícil imaginar que ninguém sabia que havia algo de errado ali.
Flora apontou para um grupo de monitores aparentemente montados a partir de peças sobressalentes. Na tela curva passavam letras embaçadas que não diziam nada a Geraldo.
- Rastreamos grande parte das comunicações do governo aqui em São Paulo. Você se surpreenderia com o que descobrimos até agora.
Geraldo arregalou os olhos, pensando nas implicações daquela revelação.
- Vocês são malucos?
Talvez tenha falado um pouco alto e esganiçado demais, porque todos os presentes pararam suas atividades para olhar em sua direção. O silêncio incômodo era quebrado apenas pelas marteladas do motor fumacento. Foi Marco quem falou primeiro, sorrindo e dando tapinhas nas costas de Geraldo.
- Relaxa. É tudo muito seguro.
Geraldo não podia parar de imaginar a porta sendo arrombada por homens da polícia armados até os dentes.
- Não era você que vivia reclamando do governo verde? Tá aí sua oportunidade de fazer algo à respeito.
Na mente de Geraldo, os homens de preto foram substituídos por uma única palavra.
“Fodeu.”


*


O encarregado da liberação das cargas apareceu quase quarenta minutos depois que eles haviam entregue a nota fiscal falsa do material supostamente dentro do contêiner. Por um tempo imaginaram que, apesar de todo o cuidado tomado, a bomba havia sido descoberta. Seu contato em São Paulo já havia colocado a mão para dentro do terno, onde certamente ocultava uma pistola. Nenhum dos dois falaram uma palavra sequer. Apenas entreolhavam-se tensos.
O homem parou no balcão, mascando um palito. Tinha o que parecia ser molho de tomate no uniforme do porto de Santos, uma mancha que não estava lá quando saiu. A marmita parcialmente comida que ele deixou sobre o balcão atestavam para o que ele estava fazendo nos fundos.
- Acho que temos um problema com essa carga.
Um calafrio correu a espinha do agente. Olhou a sua volta, atestando que não havia mais ninguém na sala. Podia ver algumas pessoas do lado de fora. Ninguém parecia armado.
- Problema? - perguntou seu contato com um português muito melhor do que o dele. - Que tipo de problemas?
- Nada demais, - disse o homem do porto, balançando a mão com desdém. - Mas o processo de liberação vai levar um tempo.
Os dois estrangeiros se entreolharam novamente. O contato local olhou seu relógio.
- Mas libera hoje?
O homem riu. Tirou o palito da boca e deixou-se cair pesadamente sobre a castigada cadeira de escritório. Então puxou-se na direção de um velho computador. Digitou alguma coisa na tela fora do campo de visão de ambos os estrangeiros. Por um instante, acharam que estavam sendo ignorados.
- Pelo menos umas seis semanas, - finalmente revelou o sujeito.
O agente entrou em pânico. Semanas? Não tinham todo esse tempo!
- Isso acabará com o cronograma que foi estipulado! Não pode demorar tanto!
Sem perceber, estava falando em sua língua nativa. O homem do porto pareceu divertir-se com a situação, o sorriso largo no rosto.
O contato local ergueu uma mão para acalmar o agente. Virou-se para o funcionário do porto.
- Sei como é, - ele disse em seu melhor português. - Mas tenho certeza que há alguma forma de reduzir esse prazo.
- Talvez, - concordou o funcionário, olhando para o vazio, como se pensando em complexas fórmulas logísticas. - Talvez, mas não seria fácil. Precisaria utilizar um processo expresso do tipo 10-G Azul. G de garoupa, se entende o que eu digo.
Algo na expressão e no tom da voz do funcionário fez o agente crer que ele havia acabado de inventar aquela sigla.
- E quanto custaria esse processo, - disse o contato local, uma mão novamente dentro do terno.
O funcionário riu e balançou a cabeça.
- É caro. Acho que uns mil reais, no mínimo.
- Mil reais, - repetiu o contato, só agora tirando a mão de dentro do terno.
- No mínimo, - respondeu o funcionário, pegando sua marmita e voltando a comer.
- E em quanto tempo você me consegue essa liberação?
- Uma semana.
- Dois dias.
- Pode ser, com um esforço extra.
- Certo. Voltamos mais tarde.
- Claro que voltam!


*


- Cara, tipo assim, eu tinha um tio que tinha um carro vermelho antigo na garagem, e eu saía escondido pelas estradas, porque a lei anti-motor de combustão já tava valendo. Aí vinham uns caras da polícia atrás de mim...
Geraldo levantou uma mão, fazendo o sujeito com o cigarro marrom deter sua narrativa.
- Peraí. Isso daí não é uma música daquela banda canadense, Rush?
O sujeito ficou encarando Geraldo por alguns longos segundos, os olhos vermelhos seja por falta de dormir ou pela fumaça excessiva do covil rebelde.
- Pô, é cara... Mas isso não importa! Olha isso. Eles tão fazendo música pra enfrentar o sistema, cara!
- O Canadá não é nem ameaça ser verde. E essa música foi escrita antes dos verdes tomarem o controle aqui ou nos EUA.
- Colé a tua, cara? Tá indo contra porquê?
Geraldo tinha passado a última hora tentando fingir que não estava em pânico. A sua volta havia fumantes e rebeldes num ambiente cheio de ilegalidade esperando para ser invadido pela polícia.
Ele havia tentado mais de uma vez fazer sinal para que Marco o tirasse de lá, mas o suposto amigo estava travando uma animada discussão política com a garota verde e dois outros caras, um deles um senhor gordo de bigodes que soltava baforadas constantes provenientes de um cachimbo extremamente fedido. Tentar evitar contato social durou pouco tempo. Logo o magricelas de cabelo loiro comprido apareceu ao seu lado, fumando um cigarro com cheiro de canela e discursando imbecilidades.
Sair correndo dali, provavelmente gritando, não parecia ser uma alternativa viável. Havia percebido ao menos um olhar tenso em sua direção e tinha a nítida impressão de que um careca fumando charuto, que até então limitara-se a ler um livro grosso chamado A Revolução Verde, escondia uma arma sob a jaqueta.
- O que exatamente vocês fazem aqui?
A pergunta pareceu ter pego o magricelas de surpresa. Ficou olhando fixo para Geraldo sem se mover por tanto tempo que, por um instante, parecia morto. Então sugou a fumaça de canela, piscou lentamente, e tentou explicar numa voz tão lerda quanto seu raciocínio.
- Cara, é um esquema de resistência, saca? Ficamos de olho em tudo que acontece em Sampa. Um dia... UM DIA! Um dia vai ter uma parada pesada. Aí vai ser o trunfo, saca?
- Mais ou menos... Que tipo de parada pesada?
O magricelas agarrou a mesa perto dos monitores e se puxou, cadeira de rodinhas e tudo, na direção dela, deixando para trás uma trilha de fumaça de canela.
- Olha aqui. Tá vendo esses números?
Geraldo não dava a mínima. Estava tentando puxar assunto para relaxar. Respondeu sem olhar para onde o sujeito apontava.
- Mhmm.
- São transferências. De grana, ou de material químico. Ou talvez sejam só dados mesmo.
- Peraí. Vocês nem sabem do que se trata?
- Cara, então. Aí é que tá a parada. Não, ainda. Falta uma coisa, uma chave, pra descobrir a parada toda, saca?
- Sei, - disse Geraldo, enquanto pensava: ou seja, vocês não têm porra nenhuma.
O que é que estou fazendo aqui mesmo?
Geraldo olhou para o relógio, fingindo que estava preocupado com a hora. Deu um tapinha nas costas do sujeito do cigarro marrom e seguiu na direção de Marco. A garota verde, Flora, estava falando algo sobre mutações premeditadas de morangos de Atibaia quando Geraldo chegou. Ela parou, sorriu e esperou que o novato dissesse alguma coisa inteligente.
- Então... - foi basicamente tudo que ele consegui dizer naquela situação.
Marco o segurou pelo ombro, dando um apertão amigo.
- Cara, desculpa ter de deixado. Você mal chegou aqui e eu te larguei à própria sorte.
- Não, tranquilo. É só que eu tenho hora...
A mentira devia ser deslavada, porque Marco, Flora e o homem do cachimbo sorriram, se entreolhando. O quarto homem, um senhor de terno e óculos, apenas observava um passo distante, uma expressão grave no rosto. O próprio Marco quebrou o silêncio desconfortável.
- Está caindo um pé d’água dos diabos lá fora.
- É que eu realmente preciso ir.
Marco sorriu, concordando com a cabeça.
- O choque foi grande demais pra você, né? Faz parte. Eu vou contigo até em casa.
- Não, não. Tranquilo - disse Geraldo, imaginando o amigo dos tempos de faculdade cortando sua garganta por saber demais, poucos metros de chegar em casa. O sangue descia o bueiro, levado pela chuva forte. - Tá tranquilo. Mesmo.
Flora segurou e apertou sua mão.
- Foi um prazer te conhecer. Espero que você venha mais vezes.
- Claro... - olhou para Marco e depois os outros. - Foi tudo muito... revelador. Mesmo! Mas preciso ir.
Ninguém mais disse nada. Todos os olhos estava em Geraldo. Tenso e sem graça, Geraldo acenou enquanto recuava de costas na direção da porta. Então murmurou um ‘tchau’, abriu a porta e mergulhou na chuva torrencial de São Paulo.
Só parou de correr quando chegou em casa.
Pelo menos a chuva havia lavado o cheiro de fumaça da suas roupas.


*


Enquanto o contêiner era carregado no trem para a capital, os dois agentes observavam cautelosos. Apesar de eventualmente o contato local ter pago o valor da propina exigido pelo funcionário do porto, nenhum dos dois confiava que tudo sairia de forma tão simples. O risco de algo sair errado ainda era grande, e nenhum os dois poderia permitir erros a esse ponto da operação.
Alguns dos funcionários do porto assistiam a uma pequena televisão. De onde o agente estava, podia ver pouco, mas o áudio era claro o suficiente.
A repórter falava sobre o tsunami que recentemente atingira a costa do Japão, causando devastação por toda a ilha. Mas o que chamou a atenção do agente foi o texto na tela: Acidente Nuclear.
O agente aproximou-se, pedindo para que aumentassem o volume.
“-… e, segundo o governo japonês,” - dizia o repórter, em pé em alguma rua deserta de Tóquio. - “As ondas teriam causado danos à estrutura da usina nuclear, provocando um sério vazamento de material radioativo. No momento, a população de Fukushima está sendo evacuada para outras localidades, pelo menos até que o risco de um acidente ainda maior tenha sido eliminado.”
Seu contato segurou seu braço, apertando firme. O pânico do próprio agente espelhava-se nos olhos de seu contato no Brasil. Caminharam para longe do grupo de funcionários, esperando para falar apenas quando estivessem longe do ouvido de todos. Por precaução, começaram a falar em sua língua nativa.
- Você viu sobre o Japão? Sobre a usina nuclear?
- Você acha que os brasileiros podem estar por trás do tsunami?
- Eles são capazes de coisas incríveis com essa bomba que transforma cidades em florestas...
O agente olhou na direção do mar, além dos navios cargueiros atracados ao porto.
- Mas um tsunami daquela magnitude...
- Não importa! Mesmo que eles não tenham causado o tsunami, certamente usarão o incidente à seu favor. Não duvido que, logo, o Japão e outros países asiáticos abracem os pensamentos anti-energia nuclear.
Lambendo os lábios ressecados, o agente respirou fundo e voltou-se na direção do contêiner com sua preciosa carga.
- Então precisamos agir rápido...


*


Uma enxurrada de pessoas saiu da estação da Sé para a superfície, nem todos tão animados quanto aqueles que foram até o lugar para o evento que duraria todo o fim de semana.
Geraldo não estava entre os alegres. Estava retornando de um dia intenso no trabalho, irritado com o chefe, com os companheiros de trabalho e o mundo em geral. Uma dor de cabeça lancinante ameaçava implodir seu cérebro. Estava tão transtornado pelo trabalho que esqueceu completamente que o presidente estaria em São Paulo nesta sexta-feira para abrir a celebração do aniversário da cidade. Ou pelo menos era o que diziam. Todos sabiam que, no fundo, aquilo era uma mistura de celebração pelo aniversário da posse do Partido Verde ao poder misturado com um pouco de pão e circo para o povo, visto que a eleição presidencial se aproximava.
Motivos de segurança nacional, dizia o anunciante no metrô, explicando porque o trecho seguinte da linha estava inativa. O detalhe era que praticamente todas as linhas de metrô da cidade passavam por aí. Geraldo tinha certeza de que era planejado: dessa forma todos acabavam indo ouvir o Gabeira falar. Devia estar um caos para sair da região sem transporte público, até porque praticamente ninguém tinha transporte privado.
Talvez houvesse por ali alguém com informações sobre que transportes públicos estavam ativos, ou ao menos algumas bicicletas públicas para usar até onde as estações estivessem abertas.
Viu Marco perto de algumas árvores, atrás de um carrinho de cachorro quente. Estava conversando com alguém fora do ângulo de visão de Geraldo. Olhava em volta, como se procurando alguém.
Com um suspiro de derrota, sabendo que mais valia ficar por lá e comer alguma coisa do que tentar enfrentar o caminho de volta para casa a pé, Geraldo seguiu na direção do carrinho. De lá poderia acenar para que Marco o visse.
Se é que o chamaria. Vinha evitando o amigo desde o incidente com o esconderijo rebelde. Não atendia os telefonemas, ignorava os e-mails. Mas sabia que não tinha como evitá-lo para sempre. Logo Marco estaria tocando sua campainha ou os dois esbarrariam pela rua.
Geraldo pediu um cachorro completo e ficou surpreso quando o vendedor que parecia compartilhar seu humor recusou o dinheiro, dizendo que estava na conta do presidente. Geraldo não ia discutir. Abocanhou o sanduíche e tomou um gole do refresco que também estava sendo oferecido. Não era mal, considerando que era de graça.
Colocou o copo sobre o carrinho e procurou Marco.
Ficou chocado quando percebeu com quem ele estava falando: o fumante do metrô.
- Geraldo?
A garota verde apareceu do meio da multidão comendo pipoca. Ela estava bastante sorridente, como se a festa fosse para ela. Deu um beijo no seu rosto, o cheiro de flores permanecendo no ar.
- Nunca pensei que veria você por aqui.
Geraldo ergueu uma sobrancelha.
- Eu poderia dizer o mesmo sobre você. Foi a comida de graça?
O sorriso emoldurado em verde cresceu. Colocou uma pipoca na boca e ofereceu à Geraldo, que recusou com a cabeça e, em resposta, abocanhou seu cachorro quente. Flora fez uma careta brincalhona.
- Você sabe do que essa coisa é feita?
- Seja lá o que for, duvido que seja saudável. E eu estou precisando de algo assim.
- Bom, é o Gabeira que está bancando. Eu não me surpreenderia se fosse salsicha de soja.
Geraldo engoliu, provou o refresco e deu de ombros.
- Tem gosto de carne processada. Nesse momento é tudo que importa.
Ela riu, então olhou por cima do ombro de Geraldo.
- Olha quem vem aí.
Marco apareceu. Abraçou Flora e apertou o ombro de Geraldo.
- E aí, sumido. Foi pego na armadilha do metrô?
- Eu e muita gente. Pelo menos a comida é de graça.
- E o espetáculo também.
- Que espetáculo?
Marco e Flora sorriram, entreolhando-se.
- Você vai ver.


*


Um palco havia sido montado diante da Catedral da Sé, não muito longe das palmeiras altas que estava decoradas com luzes e faixas. A energia que iluminava a praça, assim como aquela usada para fazer funcionar o sistema de som do palco, era limpa e gratuita, armazenada em uma série de baterias dispostas abaixo do palco, onde uma pequena sala de controle havia sido instalada.
O sexto show do dia estava acontecendo, o último antes do discurso do presidente, que prometia um anúncio importante.
O show do lado de fora era possível apenas pelo show de tecnologia acontecendo literalmente por baixo dos panos do palco. Computadores diversos controlavam quase por conta própria não só a distribuição de energia para o palco acima, mas também o som das dezenas de caixas de som distribuídas pela praça. Ainda retransmitia imagens e sons registrados na área para a cabine de comando da polícia do lado de fora e para a cabine governamental, onde tanto o presidente do Brasil como o governador do estado e o prefeito de São Paulo conversavam a respeito dos planos para o país.
Tão avançado era o sistema que apenas um homem era preciso para monitorar tudo e, mesmo ele, era preciso apenas por segurança. Supostamente tinha de interagir com o sistema apenas em casos extremos.
Wilson soprou a fumaça para longe, batendo a mão no ar para dispersá-la. Bateu o cigarro no lenço que trazia no bolso, para evitar deixar vestígios. Marco atrasou a entrega do DVD, colocando a culpa no carioca que gostava de fumar cigarros-de-cravo. Isso deixava pouco tempo para que Wilson configurasse todo o sistema à tempo.
Respirou fundo, fechando os olhos ao sentir o cheiro da fumaça. Ficava terrivelmente nervoso quando era obrigado a ficar sem fumar, um fato corriqueiro ultimamente. Trabalhar para o próprio governo, então, só tornava as coisas mais complicadas.
Disparou um spray de desodorizador de ar, pendurou o cigarro no lábio e voltou para o teclado. Estava terminando de instalar o programa que desativaria a segurança interna do sistema e permitiria que o plano corresse sem problemas quando ouviu um barulho atrás dele.
Saltou, deixando cair o cigarro.
- Ei, tem fogo? - ele perguntou, falando o código usado pelos rebeldes.
A resposta não foi exatamente o que Wilson esperava.


**


Do lado de fora. Marco e Flora haviam mudado o rumo da conversa para os shows anunciados para a noite. Por incrível que parecesse, Geraldo descobriu que algumas bandas de que gostava estariam tocando durante os próximos dias. Começaram a falar sobre músicas preferidas e shows que tinham ido na adolescência, fazendo Geraldo quase esquecer a dor de cabeça ou o incidente no covil rebelde.
Foi quando Marco agarrou o braço de Flora. Geraldo percebeu ambos arregalarem os olhos, visivelmente tensos. Começaram a andar como se não conhecessem Geraldo, passando por trás dele.
- Não olhe para nós, - sussurrou Marco para o amigo. - Eles estão vindo para cá.
- E agora, Marco... - questionou Flora. A voz soava trêmula, como se ela estivesse tentando controlar o choro.
Marco não a respondeu. Continuou a sussurrar para Geraldo.
- Debaixo do palco há uma sala de controle. Você precisa ir lá garantir que tudo aconteça.
- Quê!? - perguntou Geraldo alto demais. Algumas pessoas olharam para ele, questionando quem era o maluco falando sozinho. Geraldo teve o estado de espírito para fingir que estava criticando o show da banda tocando no palco principal.
- Estão vindo pra cá... - disse Flora, urgente.
Marco colocou alguma coisa na mão de Geraldo. Temeroso, Geraldo apenas o enfiou no bolso sem olhar o que era.
- Geraldo, você pode ser nossa única esperança. Talvez tenham pego o Wilson. Você precisa ir até lá. Ninguém te conhece. É só ativar tudo e sair o mais rápido que puder. Essa bomba precisa ser detonada quando o presidente estiver no palco.
- Bo... bomba!?
Marco e Flora saíram correndo, empurrando quem estivesse no caminho. Geraldo virou-se na direção da confusão a tempo de ver um homem de terno escuro e dois policiais passarem correndo atrás dos dois rebeldes.
Geraldo se viu sozinho no meio da multidão.


*


Era claro que havia algum problema. Geraldo passou por um ponto de checagem mostrando o crachá dado por Marco antes de fugir, mas ninguém deu muita bola. A polícia e dois homens de terno discutiam sobre a captura dos ‘insurgentes’ e o fato de que um deles parecia ter fugido. Geraldo respirou fundo, silencionamente rezando para que fosse Marco.
O ar estava tenso atrás do palco. Olhares suspeitos eram trocados, mas durava apenas o tempo de perceberem um crachá ou serem chamados pelo rádio, que não parecia parar um minutos.
Uma espécie de sala de controle havia sido estabelecida embaixo do palco. O teto era baixo, obrigando Geraldo a se curvar. A iluminação era feito apenas por um grupo de monitores na parede oposta e algumas poucas lanternas penduradas para fazer o papel de lâmpadas improvisadas e pouco eficientes. O ar misturava o cheiro artificial de flores e fumaça.
Havia um sujeito sentado na cadeira diante dos monitores. Parecia estar atento à alguma coisa em seu colo. Geraldo ficaria bastante irritado se descobrisse o tal Wilson despreocupadamente jogando um video game portátil enquanto o mundo estava caindo lá fora. Apressou o passo.
- Er... Wilson?
Havia um cigarro no chão, a chama queimando-o às cinzas. Geraldo abaixou-se para pegá-lo por puro instinto. O cilindro de cinzas em que havia se transformado o cigarro soltou-se e se esfacelou no chão. Revirando o nariz pelo cheiro da fumaça, Geraldo devolveu o cigarro para Wilson.
A primeira coisa que percebeu foi que Wilson era nada mais nada menos do que o fumante que o perseguira no metrô.
A segunda coisa foi que a atenção de Wilson estava no buraco em seu estômago, de onde vazava seu sangue.
- Puta merda.
Cambaleou para trás, esbarrando em algo. Virou-se, esperando encarar outro corpo ou algum sujeito armado. Não era.
Sentiu o corpo todo tremer. Quase caiu no chão.
Era uma bomba com o símbolo da paz desenhado na cúpula.


*


Muita gente diz que o Brasil é o melhor lugar do mundo. Não temos terremotos, nem maremotos. Não temos guerras ou ataques terroristas. Isso tudo, claro, é bastante discutível. Mesmo com todos os avanços das últimas duas décadas, ainda havia desigualdade social. Ainda havia crime. E, mais do que qualquer outra coisa, havia corrupção.
O senador saiu da sala de reunião com um sorriso no rosto e uma conta bancária mais recheada. O empresário permaneceu para trás, em completo silêncio. Segurava as costas da cadeira apertando-a com força. No fundo gostaria que fosse o pescoço do senador. Respirou fundo, soltou o ar devagar. Era óbvio que não tinha opção.
Ligou o interfone.
- Clarissa? Pode pedir para o doutor Moura voltar, por favor?
- Claro, senhor Horácio.
Horácio não se sentou. Permaneceu onde estava apesar da vontade de andar de um lado para o outro, de jogar os óculos no chão, de socar a parede. Quando Moura entrou, ele estava pensando como se explicar à família quando a inevitável CPI das bombas Eden chegasse até ele.
O doutor Moura entrou. Ele tinha o cachimbo na boca, apesar de não tê-lo acendido. Mastigava o bico sempre que estava irritado. Se não podia fumar na frente dos outros, ao menos exigia o direito de manter o aparato que pertenceu ao avó sempre por perto.
Não disse nada. Apenas puxou a cadeira onde estivera sentado anteriormente e deixou-se cair sobre ela. Grande, provocou um som alto com sua queda.
- Preciso de você para reduzir o custo das bombas.
Moura tirou o cachimbo da boca. Colocou-o sobre a mesa e passou os dedos gordos pelo rosto. Apertou os olhos, esfregou o bigode.
- Não acredito que você fechou o acordo.
- Não foi uma escolha.
- Sempre há uma escolha.
- Então me dê uma.


*


Poucos minutos após o final do show da última banda, o palco diante da Igreja da Sé se iluminou. As cores das luzes distribuídas pela praça e em torno das palmeiras ganharam um tom verde.
Os telões distribuídos pela praça trocaram cenas de videoclipes por uma propaganda do governo federal, ressaltando as grandes conquistas do Partido Verde, como a redução da poluição, do desmatamento, do desperdício de água, assim como a construção de três hidroelétricas e a exploração do petróleo do pré-sal.
Em meio a um show de luzes e música ufanista, uma turba de políticos subiu ao palco. Presidente, governador, prefeito e diversos senadores e deputados, todos membros do Partido Verde ou de partidos aliados. Foram recebidos com aplausos por uma grande maioria dos presentes.
Embaixo do palco, Geraldo assistia tudo por um dos muito monitores. Olhava indeciso para a bomba, tentando descobrir o que deveria saber, se é que realmente faria algo. Engoliu em seco ao encontrar uma folha dobrada no chão ao lado de onde Wilson permanecia sentado.
Abriu o papel e passou os olhos pelo conteúdo. Eram instruções de como instalar um programa que ‘abriria as portas’ para o arquivo no disco. Não havia menção alguma de bomba.
Geraldo olhou na direção da bomba, e depois para Wilson. Se Wilson era o responsável por ativar a bomba, porque o teriam matado? Se tivesse sido a polícia, porque não desarmaram a bomba e deixaram o corpo para trás? Não fazia sentido algum.
No monitor diante de Wilson, uma janela aberta indicava um único arquivo, acessado de um leitor de DVD do computador. Olhou novamente para as instruções, para a bomba, para o arquivo.
Respirando fundo, Geraldo clicou no arquivo.
Então saiu correndo o mais rápido que podia.


*


O presidente estava falando sobre uma importante aliança com o Estados Unidos quando as caixas de som voltaram a tocar a música do vídeo do governo num volume ensurdecedor. Houve uma pausa, quando o som se distorceu e tudo parou. Os telões ligaram-se, mostrando a imagem de uma sala de reunião, filmado de um ângulo estranho, como se a câmera estivesse oculta.
Sentados numa mesa estavam um importante senador do Partido Verde e o governador do estado de São Paulo.
- Não é nada diferente do que eu já propus no outro dia. A diferença é apenas a escala!
Todos voltaram suas atenções para a o vídeo. No palco, o senador e o governador se entreolharam, visivelmente tensos.
- Mas, senhor senador... A mudança que o senhor ordenou já tornará as bombas Eden instáveis. Desviar mais da verba para você tornará o projeto arriscado demais.
No vídeo, o governador sorriu, a perna cruzada e o braço sobre o encosto da cadeira, relaxado.
- Horácio, não é isso? Pois então. Horácio. Nós sabemos que você colocou uma margem de lucro alta no projeto.
- O senhor senador já disse isso duas semanas atrás quando exigiu cinco porcento do dinheiro do projeto.
- E o que são dez porcento?
- Cerca de meio bilhão de reais.
- Em um projeto bilionário! Não é tanto assim.
- É perigoso. Especialmente se o governo federal pretende continuar com esse projeto de ecoterrorismo. E se a bomba de Mumbai tivesse falhado? Seria fácil alguém descobrir de onde veio a bomba, tendo ela inteira.
No vídeo, o senador riu e fez um movimento de desdém com a mão.
- Todos sabem de onde vem a bomba.
No palco, senador e governador davam ordem para que cortassem a transmissão. O presidente olhava incrédulo para o telão, sem saber o que dizer. Um deputado correu para o microfone e começou a falar, mas o som havia sido cortado.
De pé sobre um canteiro de árvores para ter uma visão melhor, o agente que havia levado e armado a bomba, que havia matado o fumante WIlson, observava tudo. Aquela bomba poderia ser ainda mais poderosa do que a que havia armado sob o palco. A não ser que o governo conseguisse agir muito rápido, aquele vídeo já estaria na internet em pouquíssimo tempo. Os efeitos do que era dito naquele vídeo eram potencialmente devastadores para o governo federal do Brasil.
Ele sorriu, olhando seu relógio.
Bom, nada melhor do que terminar um espetáculo com fogos de artifício.
Sob o palco, a bomba explodiu.
Uma onda de choque expandiu daquele ponto, arremessando quem estava perto para longe. Os políticos, a maioria ainda aturdidos pelo vídeo bombástico, saltaram dois metros no ar antes de cair novamente no palco.
Foi então que o próprio solo explodiu e trepadeiras, flores, fungos, árvores inteiras brotaram instantaneamente.
Mas aquela bomba pertencia a um lote especial. Era a primeira a ser produzida após o desvio de dez porcento da verba o projeto. Instável, ela não transformou São Paulo em uma floresta tropical, mas fez do palco do Partido Verde o jardim mais florido do mundo.
Tragédia, falaram os políticos sobreviventes.
Justiça, disseram Marco, Flora e os demais rebeldes que conseguiram escapar.

Licença poética, pensou o agente, sorrindo e partindo de volta ao aeroporto. Seu trabalho estava concluído.

2 comentários:

  1. Muito bom o seu conto, achei bem fluido e agradável.
    Parabéns!

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