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segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Construindo Mundos: Mitos e Crenças

Como eu sempre digo: detalhes fazem a diferença. E às vezes os detalhes contam histórias de forma muito melhor do que um texto descritivo longo. O principal motivo disso é que mitos e crenças, o folclore local, são resultado de eventos reais vistos pelos olhos de quem não entende, e recontados para quem não viu. Se um objeto sumiu quando não deveria sumir só pode ser a ação de duendes. Se algo parou de funcionar na pior hora possível: gremlins!


Fato: peça a dez pessoas diferentes para descrever um evento para você. Cada um fará isso de forma diferente. O que chama atenção para uma pessoa não necessariamente chama para outro. Também existe a questão do ponto de vista. Para onde você estava olhando naquela hora? Você enxerga bem? Você tem o conhecimento (físico, químico, social, tecnológico, cultural, etc) para entender o que aconteceu?


Mas algo aconteceu.


Da mesma forma, a mente humana tende a por lógica em padrões aleatórios. É o motivo pelo qual vemos rostos e formas em nuvens, azulejos e linhas na madeira. É, também, o motivo pelo qual muitos fazem provas com suas canetas da sorte ou coisas parecidas. Se eu tirei uma nota alta usando essa caneta duas vezes, é porque a caneta é o causador da nota, e não meu estudo. O mesmo vale para inúmeras outras manias.


É difícil dizer como um mito surge e em que momento ele se torna verdade. Existem centenas de estudos que tentam desvendar as origens de mitos clássicos como vampirismo, a arca de noé, a sorte do trevo de quatro folhas ou a existência de gárgulas. E falando em gárgulas...


A maioria das pessoas que conhece o nome pensa em monstros alados de pedra no topo de igrejas. Talvez tenham ouvido falar que estão lá para proteger esses lugares. Bom, isso tudo é um mito.


A palavra “Gárgula” é derivado de “garganta”, e é este nome porque “gárgula” nada mais é do que uma forma de jogar a água da chuva para longa da parede de uma construção, assim evitando danificá-la. O conceito é antiquíssimo, mas só ganhou a aparência do monstro com pescoço longo para lá da idade média.


Curiosamente existe uma lenda francesa supostamente de antes de cristo onde um dragão chamado Gargouille que, após ser morto, teria tido a cabeça e o pescoço longo presos a uma catedral para afastar o mal, como um aviso.

Existe alguma suposta relação entre os dois: esse dragão cuspia jatos de água. Talvez um seja derivado do outro. Ou talvez seja mera coincidência. Quem sabe?

Claro que ao longo do tempo as coisas mudam. Em dado momento a própria Igreja foi contra o uso dos gárgulas, como se tê-las nas igrejas fosse uma forma de idolatria. O que não impediu arquitetos góticos de começarem a usar gárgulas apenas como peças decorativas algum tempo depois.


Falando em Igreja Católica, e a história sobre santos cujos corpos jamais apodrecem?


Eu já estive na pequena capela de Santa Clara na cidadezinha italiana de Assis (que, diga-se de passagem é ridiculamente pequena comparada à de São Francisco, que era filho de família nobre). Ela morreu no século 13, mas seu corpo “miraculosamente” jamais se decompôs. Hoje é possível vê-la por uma janelinha dessa capela, deitada sobre uma cama de pedra, onde vez ou outra freiras entram para acender velas e tal.


Não vou entrar na discussão de se o corpo é realmente dela ou se ela realmente está inteira. A pele dela parece muito com cera, mas pode ser um efeito natural da preservação. O fato é que existe um mito em torno dela como santa não só em Assis e na Itália, mas especialmente no Brasil. Milagres foram atribuídos a ela. Se você tem 30 ou mais anos, possivelmente já viu o filme Irmão Sol, Irmã Lua que passou infinitas vezes na Globo e supostamente narrava a história de São Francisco e Santa Clara cuidado de leprosos em Assis.


Pois bem, “incorruptibilidade” é um termo de verdade que se refere a corpos que não deterioram como deveriam. Segundo a Igreja Católica, isso é um sinal de intervenção divina. A ciência tem suas teorias, que vão das condições atmosféricas a elementos do próprio corpo. Inclusive existe uma coisa bizarra chamada “cera cadavérica” (corpse wax em inglês). Dê uma pesquisada se você tiver coragem.


A verdade é que corpos “incorruptíveis” não são assim tão “incorruptíveis”, especialmente quando as condições onde o corpo está mudam. E, sim, muitos deles são tratados com ácidos e camadas de cera, que provavelmente explica o caso das freiras clarissas que eu mencionei ali em cima.

A mumificação natural é algo semelhante. Alguns povos do Peru ainda cultuam seus antepassados mumificados pelo clima seco e os ventos das montanhas. Os corpos não são enterrados, mas decorados, cobertos por um manto, e colocados em cavernas no alto das montanhas, onde vez ou outra seus descendentes vão visitá-los para pedir conselhos. Alguns são tão bem preservados que você fica esperando que eles abram os olhos e respondam.


Já que o assunto é preservação para a eternidade, e os vampiros?


O mito do vampiro é muito famoso. Lendas de monstros sobrenaturais que sugam a vida alheia existem em praticamente todas as culturas do mundo. Não é que vampiros realmente existam: é que para uma sociedade sem conhecimento sobre medicina ou genética acaba por atribuir doenças e condições naturais ao sobrenatural (ou ao científico, no caso das teorias sobre pirâmides e alienígenas). Fazendo uma pesquisa profunda sobre o tema mostrará inúmeras versões do vampiro, inclusive diversas formas de destruí-lo, detê-lo ou proteger-se dele. Há inclusive versões que dizem que a melhor forma de escapar de um vampiro é jogando sal no chão, porque ele automaticamente parará para contar cada grão de sal. Vai entender...


O mito conhecido no século 20 é reflexo da ficção vitoriana, dos “penny dreadfuls” (folhetins de terror ingleses) e livros como Drácula, de Bram Stoker. São, claro, compilações de certas ideias que vão mais longe. O próprio Drácula histórico existiu. Foi um príncipe de Valáquia (na atual Romênia) chamado Vlad (da Casa Dracula). No século 15, Vlad Dracula impediu o avanço do Império Otomano na região usando táticas de terror. Ele empalava soldados otomanos capturados e, segundo a lenda, os observava morrer lentamente enquanto jantava.  Até hoje Vlad é considerado um herói na região.


Outra história da mesma época é da condessa húngara Elizabeth Báthory. O mito diz que ela matou centenas de jovens virgens para poder banhar-se em seu sangue e permanecer jovem para sempre. Lógico que hoje é difícil diferenciar real do imaginado, mas a condessa realmente foi condenada e presa no início do século 17 por torturar e matar algumas dezenas de mulheres.

Diga-se de passagem, essa crença alterava a vida da população. Pessoas realmente andavam com sal no bolso, enquanto outros espalhavam sementes de girassol ou dentes de alho pela casa. Há vários relatos sobre pessoas sendo enterradas de costas, para caso "despertassem" no caixão, cavassem para o lado errado. E isso sem falar nas pessoas enterradas com estacas de ferro no peito e na boca (para prendê-los ao chão) ou tijolos de pedra na boca.


É importante entender também que o tempo torna qualquer mito uma verdade nas palavras de quem tem motivo para criar um mito. Nós brasileiros conhecemos um Tiradentes que parece Jesus Cristo (esse branco e barbado, outra imagem criada). Esse Tiradentes é um herói porque lutou contra a coroa portuguesa. Curiosamente, se você der uma estudada mais a fundo no assunto vai descobrir que ele foi tornado herói e ganhou essa aparência após a declaração da República, quando a monarquia foi demonizada. Inclusive estudos mais recentes chegam a acusar Tiradentes de várias coisas, entre elas ser dono de escravos, agiota e traficante.


Há também toda uma linha de pesquisa que estuda a origem dos mitos religiosos encontrados na Bíblia, Torá e Alcorão. Eu lembro de ter lido em algum lugar a teoria de que a destruição das cidades de Sodoma e Gomorra devido aos seus pecados, segundo a Bíblia e o Torá, poderia ter sido resultado de um terremoto catastrófico 4.000 anos atrás, ou mesmo a explosão aérea de um asteroide ou cometa como o que devastou mais de 2.000 quilômetros quadrados de uma floresta na Sibéria em 1908.


E falando em eventos cósmicos, a explosão de estrelas (supernovas) foi registrada diversas vezes por chineses desde o século 2. Os chineses já nessa época tinha uma boa noção de astronomia (ao ponto que chamavam esses objetos temporários de 'Estrelas Novas' ou 'Estrelas Visitantes'). Mas há, também, arqueólogos que afirmam que certos desenhos feitos por povos primitivos na Bolívia sejam uma representação de uma dessas explosões alguns milênios atrás.

Diga-se de passagem, construções milenares na América do Sul e Central são ótimas formas de gerar mitos. Ninguém faz ideia de porque povos antigos fizeram enormes esferas de pedra na Costa Rica ou o significado dos "portais de pedra" encontrados em Tiwanaku.

Vamos pensar em seu mundo agora. Que figuras histórias existem nele? Um herói, um santo, um deus? Como ele se tornou quem é hoje? Essa história é real ou fictícia? Quem contou essa história e porquê? Vamos em outra direção: os cidadãos de um país ou reino em seu mundo tem uma mania (um sinal, uma expressão, um objeto carregado). Que mania é essa e qual é a sua origem?


Semana que vem vamos aos fatos: um exemplo prático de criação de mundo ficcional usando um dos meus trabalhos recentes como exemplo.

Até lá.

5 comentários:

  1. Oi, problema de marinheiro de primeira viagem... meu comentário anterior chegou? Abs.

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  2. Rodrigo, acho que seu outro comentário naufragou durante a viagem, porque não vi por aqui :)

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  3. Culpa minha com certeza... . Não tem problema, escrevo de novo :)

    Caro J.M.,

    meu nome é Rodrigo e, apesar de jogar RPG há 20 anos, só agora eu e meu grupo estamos nos atendo a parte de criação. E, um dos aspectos que está surgindo nesse processo é a percepção de que existe um material sobre RPG no meio acadêmico/científico - tanto na parte pedagógica, quanto na parte psicológica. Lendo seu texto (ótimo por sinal!) notei alguns conhecimentos técnicos, para além da parte narrativa, em geral relacionada com RPG. Minha pergunta então é: Você teria algum referência acadêmica sobre o uso de RPG em diferentes áreas, que não fosse sobre narrativa (como pedagógica ou psicológica, como citei, ou mesmo outras)?

    Abraços,
    Rodrigo

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  4. Oi, Rodrigo!

    Existe muito material acadêmico sobre RPG, especialmente focado em pedagogia. De cabeça não lembro nada recente (da última década), mas li algumas coisas, em especial esses dois aqui:

    RIYIS, Marcos Tanaka. SIMPLES: sistema inicial para mestres-professores lecionarem através de uma estratégia motivadora. São Paulo: Ed. do Autor, 2004.

    RODRIGUES, Sonia. Roleplaying game e a pedagogia da imaginação no Brasil: primeira tese de doutorado no Brasil sobre o roleplaying game. Rio de Janeiro: Bertrando Brasil, 2004.


    Mas se você pesquisar na internet por "RPG e educação" ou "RPG e psicologia" você vai esbarrar com várias teses de mestrado e doutorado. Duas que vi agora (mas não li para opiniar) são:

    http://www.academia.edu/1960689/RPG_e_Vigotski_perspectivas_para_a_pratica_pedagogica

    http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98932009000400005

    Em inglês você provavelmente encontra mais material ainda.

    Espero que te ajude!

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    1. Muito obrigado! Era exatamente o que eu esperava. Abs!

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