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sábado, 11 de fevereiro de 2017

Conto - Segunda Chance

Era assim pelo menos uma vez por mês no Segunda Chance. Os clientes se empolgariam com o vinho de palma, começariam a contar meias verdades sobre suas habilidades como mercenários, caçadores de recompensas e ladrões, então alguém invariavelmente mencionaria a guerra, e o salão ficaria em silêncio. Olhares furtivos iriam para o taverneiro, geralmente quieto em seu canto atrás do balcão, fingindo não ouvir.
Não que o assunto fosse tabu, ou que o taverneiro o tivesse proibido. Nunca precisou.
É que todos lembravam-se das mãos de Odongo. Ou, no caso, da falta delas.
Uma vez um sujeito que só podia ser estrangeiro - ninguém nascido em Myambe era tão branco -, encorajado pela bebida e o sucesso em um roubo recente, resolveu perguntar onde ele havia esquecido as mãos. Os clientes mais antigos mandaram-o calar a boca, mas ele insistiu, dizendo que certamente havia ali uma história interessante.
Odongo forçou um sorriso propositalmente enigmático e disse que “Nem toda história é para ser contada.”
Um antigo cliente cujo trabalho envolvia quebrar pernas perguntou depois se Odongo queria que o estrangeiro sumisse. Se Odongo fizesse isso com todo mundo que ficasse curioso sobre suas mãos, logo o Segunda Chance estaria sem clientes. E, afinal de contas, se Odongo dera aquele nome ao lugar era porque acreditava em segundas chances.
O som da porta se abrindo com um empurrão atraiu os olhos do taverneiro e seus clientes à entrada. Alguma coisa caiu no chão de tábuas como um fardo velho. Odongo olhou por cima do ombro, já sentindo um calafrio de expectativa.
Um mercenário veterano que vinha prestando serviços ao taverneiro estava na entrada. Puxou algo para frente, antes oculto atrás dele. O homem caído de joelhos ao seu lado grunhiu de dor e confusão.
Odongo deixou os copos que estava limpando para trás e foi ao encontro de Kasim sem precisar preocupar-se com a curiosidade dos clientes e parceiros de negócios. As únicas perguntas aceitas no Segunda Chance eram ‘vivo ou morto?’ e ‘quanto você vai me pagar por isso?’.
Kasim pegou o homem caído pelos cabelos crespos e forçou-o a olhar para cima. Odongo sentiu um novo calafrio.
O homem atordoado tinham o olho esquerdo e a boca inchada. Sangue seco escorria do lábio partido e de uma narina. Cheirava à bebida barata e imundice. Ainda assim era impossível não reconhecê-lo. Vinte anos e aquele rosto não tinha abandonado sua memória.
Os braços do homem estavam para trás, certamente presos nos pulsos por uma corda, ocultos sob o manto velho que Kasim jogara sobre seus ombros. Acostumado a como funcionavam as coisas em Porto Qadis, o mercenário não queria atrair a atenção da guarda. Odongo também preferia assim. Especialmente para este contrato em particular.
- Espero que ele tenha te dado trabalho.
Kasim franziu a testa, mas não sorriu. Raramente o veterano o fazia.
- Deu, - disse, estalando os dedos das mãos. - Daria menos se você tivesse deixado de frescura e me deixado levar minha equipe.
- Não acho que seus amigos estrangeiros entenderiam.
Kasim apenas fez um som com a garganta de quem não se importa.
No chão o prisioneiro parecia recuperar-se, olhando a sua volta para identificar onde estava. Os olhos pararam nos pulsos de Odongo, onde ambas as mãos havia sido decepadas tanto tempo atrás. Ele murmurou qualquer coisa. Talvez fosse uma prece.
- Ah, vejo que você me reconhece, - disse o taverneiro, um sorriso sincero abrindo-se no rosto. - Ou será que reconhece apenas o seu trabalho?
O prisioneiro baixou os olhos para o chão e começou a chorar em antecipação ao que viria. Ao seu lado o mercenário retesou as costas. Parecia só agora compreender quem era o homem que Odongo mandara capturar.
Aquele não era mais uma recompensa a ser caçada.
Era um favor pessoal.
- Preciso de mais um serviço seu, Kasim, - disse o mercenário sem tirar os olhos do prisioneiro aos seus pés. - Algo que infelizmente não posso fazer por conta própria.
Kasim colocou a mão no punho de sua espada, o rosto mais sério e determinado que Odongo jamais vira desde que o veterano retornara à Myambe semanas antes.
- Não se preocupe. Isso eu faço de graça.


*


Odongo colocou o prego sobre a ripa de madeira. Pensou três vezes antes de dar a primeira martelada, temendo acertar os próprios dedos. Por incrível que pareça, acertou o prego. Três, quatro, cinco marteladas e o palco estava terminado.
Limpou o suor na testa, sorriso largo no rosto, e se afastou para admirar seu trabalho. Apoiou as mãos na cintura. Assobiava feliz.
- Espero que esta coisa não caia, porque você gastou uma fortuna em pregos.
O Dabir de Najmal parou o carrinho de mão logo atrás de Odongo. Quem não o conhecesse acharia que era qualquer outro habitante da vila, um pescador ou carpinteiro, considerando os trajes simples e mãos calejadas. O sacerdote da Estrela da Manhã puxou um pano do bolso e limpou a testa.
- Seu irmão diria que o ferro teria melhor utilidade como armas.
- Por sorte ninguém dá a mínima para o que ele diz.
Odongo deu tapas no chão elevado do palco, como se para ter certeza que aguentaria o peso de tantas pessoas. A ideia era apenas subir lá a banda e ele, apresentando o festival, mas não havia um ano sequer em que pelo menos metade da vila não terminasse a festa lá em cima, pulando e dançando, meio bêbada.
Ainda havia muito o que se fazer até o fim do dia, e pouco tempo a perder. O incentivo do trabalho duro era saber que em poucas horas estaria lambuzando os dedos com tâmaras recheadas de pasta de amêndoas. Ele já podia sentir o cheiro da água de flor de laranjeira que a senhora Hadya usava nas receitas.
- Não deveríamos estar perdendo tempo com uma festa.
Odongo abriu os olhos ao ouvir a voz do irmão. Rolou os olhos, procurando no céu a Estrela da Manhã, para fazer uma prece. Gostaria muito que ela iluminasse Apiyo, ou pelo menos o tornasse menos chato. Não encontrou a estrela em parte alguma. Talvez ela também estivesse escondendo-se do irmão.
Como era possível ser tão igual e ao mesmo tempo tão diferente?
- Por que não? - Odongo virou-se para trás, onde o irmão futucava um dos pregos do palanque. - O clima está ótimo!
Para provocar Odongo abriu os braços, apontando para o céu azul e praticamente sem nuvens. Apesar do suor, o dia estava muito fresco, uma brisa perfeita vinda do oceano. Os pescadores tinham dito que fora uma manhã perfeita para pescar e velejar.
Apiyo foi até o irmão e pegou-o pelo braço.
- Você sabe muito bem ao que eu me refiro.
- A guerra? - disse Odongo, imitando forçosamente o sussuro do irmão. Então deu um tapão no braço de Apiyo e se afastou. - Deixa de ser besta. Por que um deus-imperador viria até uma vilazinha de meia-tigela onde só vivem pescadores e bordadeiras?
- Exatamente porque temos barcos. Não ouviu o que dizem, de que ele mandou queimar todos os portos de Melkat? Matar todos os construtores de navios?
- Navios? - Odongo soltou uma risada tão sincera que precisou colocar as mãos sobre a barriga para não explodir. - Uma dúzia de barcos de pesca não são navios. Ele acha o quê? Que vamos atravessar o Oceano de Mil Deuses com eles e fugir que nem nossos antepassados? Por favor, Apiyo. Não seja ridículo.
- Se você acreditasse mesmo nisso não estaria abastecendo o esconderijo do quebra-mar para a vila inteira se esconder.
Foi a vez de Odongo agarrar o braço do irmão e falar baixo. Olhou a sua volta, os olhos ligeiramente arregalados de surpresa antes disso.
- Eu sou otimista, não idiota. E fale baixo. Não quero causar pânico.
A risada de Apiyo não tinha humor algum. Foi puro deboche, como sempre.
- Odongo, tem um exército invencível vindo para cá, - ele dissem gesticulando para o norte, mas ainda mantendo a voz baixa. - Quanto tempo você acha que pode esconder a verdade de todo mundo?
As filhas da dona Fátima olharam na direção dos dois, cochichando. Estavam trazendo o almoço do filho do ferreiro que trabalhava montando uma das barracas de comida. Odongo forçou o sorriso mais sincero que conseguia e acenou para eles. Elas retornaram o cumprimento, e desviaram o olhar para o jovem a quem viviam perseguindo desde pequenas.
- Se você continuar falando alto assim, não muito mais tempo.
Apiyo bufou, afastando-se do irmão. Passava a mão na nuca como fazia desde pequeno quando estava apreensivo. Andou de um lado para o outro. Às vezes ele fazia isso, como se precisasse mover as pernas para conseguir pensar numa resposta. Infelizmente para Odongo o Dabir passava por perto nessa hora, retornado com o carrinho de mão agora cheio de baldes de tinta.
- Professor, por favor, coloque alguma razão na cabeça do meu irmão.
O Dabir parou, sorrindo sem mostrar os dentes, sem soltar o carrinho.
- Seu irmão tem toda razão que precisamos, filho. Ele está certo. Manter a normalidade é o que fará o povo esquecer a ameaça vinda do Norte enquanto os últimos preparativos para nosso refúgio são feitos em segredo. Quando os exércitos do imperador chegarem até aqui...
- Se, - corrigiu Odongo, erguendo um dedo.
O Dabir alargou o sorriso e concedeu, concordando com a cabeça.
- Se eles chegarem até aqui, teremos tempo o suficiente para evacuar a vila de barco até as cavernas na encosta.
Odongo aproximou-se do irmão, colocando um braço sobre seus ombros, a outra mão apontando no peito de Apiyo.
- E, como você mesmo disse, o Império de Diamante não usa navios. Jamais pensarão em nos procurar no paredão do quebra-mar. Estaremos seguros.
Apiyo empurrou a mão do irmão para longe e se desvencilhou do abraço. Será que não havia um momento em que não estivesse franzindo aquela testa?
- Estaremos presos em uma toca como um gambá acuado. Isso se sequer conseguirmos sair a tempo da vila.
- Está vendo? - disse Odongo, sorrindo. - É exatamente esse tipo de pânico que quero evitar.
O irmão jogou os braços para cima e foi embora resmungando.
- Apesar de tudo, preciso concordar com seu irmão.
Odongo suspirou, balançando a cabeça. Tudo o que ele queria era as tâmaras recheadas da senhora Hadya.
- Você também, professor?
O Dabir parou o carrinho onde o filho do ferreiro ainda conversava com as meninas. Cumprimentou os três, fazendo o sinal da Estrela para abençoá-los, então se aproximou de Odongo. Não precisava sussurrar. Sempre falava baixo, como se estivesse diante da própria Presença Celestial.
- Veja bem, filho: se fugirmos é porque não acreditamos na iluminação da Estrela da Manhã. Foi ela que nos trouxe a este vale tantos séculos atrás.
- Sei tudo sobre as escrituras, professor. Graças a você, inclusive. Sei do êxodo pelo deserto fugindo do próprio imperador.
O Dabir sorriu, concordando com a cabeça. Confiava a barba que ainda era negra apesar da idade.
- Então sabe que precisamos confiar na guia da Estrela.
- Ah, mas aí é que está, caro professor. - Desta vez Odongo colocou o braço em torno do ombro do sacerdote. - E quem diz a ideia de preparar um esconderijo nas rochas não é uma iluminação? Tive a ideia justamente ao acordar de súbito na madrugada, quando havia apenas Ela no céu.
O Dabir não conseguiu impedir uma risada. Concordou com a cabeça, suspirou. Percebeu que nada que dissesse mudaria a opinião de Odongo.
- Talvez você esteja certo, - disse. - Talvez. O que não significa que não devemos ficar atentos às oportunidades que a Estrela da Manhã nos apresente no futuro. Quem sabe não há outra solução?
- Ah, se eu soubesse a que solução você se referia, não é, professor?
As memórias era frescas para Odongo, o que apenas as tornavam mais dolorosas. Nem o cheiro de bebida velha na madeira das mesas do Segunda Chance conseguiam espantar a lembrança do cheiro daquelas tâmaras recheadas, ou a sensação dos dedos lambuzados de pasta de amêndoas.
Odongo sentou-se no banquinho de madeira, o único móvel do quartinho nos fundos da taverna, onde os prisioneiros dos caçadores de recompensas costumavam esperar até serem recolhidos. Lá o cheiro era do medo de dezenas de homens e mulheres que pagaram pelos seus erros.
De joelhos no chão, nu, o corpo ferido agora de chutes e socos dados por Kasim, mas imaginados por Odongo, o antigo Dabir de Najmal apenas gemia. Se naqueles tempos não parecia o homem santo que deveria ser, hoje parecia muito menos.
Onde tinha vivido o homem que uma vez esteve entre os mais poderosos do Vale, um homem que optou por conta própria trocar as grandes cidades por uma pequena vila de pescadores para levar até eles a educação e a palavra da Estrela da Manhã?
Odongo fez um sinal para Kasim, e o mercenário pegou o balde. Despejou a água suja da última lavagem do chão da taverna na noite anterior. O Dabir se assustou, achando que ia se afogar. Entre um soco e outro perdeu a consciência enquanto Odongo recontava suas memórias daquele fatídico dia.
- Você costumava ser uma pessoa mais educada, professor. Ouvia quando nós falávamos com você.
O Dabir cuspiu água, balbuciou qualquer coisa incoerente.
Odongo se abaixou de cócoras diante do prisioneiro, erguendo um punho decepado até perto do ouvido.
- Não estou ouvindo. É melhor falar mais alto.
- Por quê?
Odongo se levantou tão rápido que perdeu o equilíbrio.
- Por quê? - ele repetiu. Então, novamente, gritando. - Por quê?
Não tinha a menor chance de qualquer um ouví-los do salão e, mesmo que alguém os ouvisse, fingiriam não ter ouvido. Todos sabiam que tipo de gente ia parar no quartinho dos fundos.
Odongo virou-se, chutando o banquinho para longe. Andou de um lado para o outro, forçando uma risada sem humor. Passou o pulso na nuca. Lembrou do irmão.
- Kasim, - disse, gesticulando com o pulso.
Kasim era um veterano de guerra. Lutara ao lado do Vale em uma das muitas companhias livres de Myambe. Em seu olhar estavam as centenas de homens e mulheres que vira morrer, as dezenas que vira mutiladas. Era uma realidade cruel em uma terra desacostumada à paz.
O mercenário agarrou o Dabir pelos cabelos e deu um soco em seu estômago, por Odongo e por ele próprio. O homem santo curvou-se para frente, como se saudando a Estrela da Manhã bem cedo, e vomitou pelo chão o que ainda tinha no estômago.
Odongo usou os antebraços para pegar o banquinho virado e colocá-lo novamente diante do Dabir. Sentou-se, respirando fundo para se acalmar. Se tivesse mãos teria voado no pescoço do desgraçado.
- Você encontrou um agente do Império, um homem enviado para procurar traidores como você. Você vendeu Najmal.
O Dabir estava soluçando no chão, mas Odongo tinha certeza de que tinha ouvido alguma coisa. Rolou os olhos, sem paciência.
- Mais alto.
- É mentira!
Kasim agarrou os cabelos do Dabir e forçou-o a erguer o corpo. O homem santo já estava chorando, as mãos erguidas em súplica antes do mercenário fechar o punho para um soco.
Odongo deteve Kasim com um gesto.
- Mentira? - ele perguntou, examinando o rosto agora deformado do Dabir. Como tinha envelhecido, o desgraçado. - Quem você pensa que engana? Eu vi quando você se esgueirou para longe da festa aquela noite. Foi então que você vendeu Najmal e todos nela para o Império! Foi quando você garantiu que perderíamos tudo!
- Não, não, não! - insistiu o prisioneiro.
Kasim olhou para Odongo, que fez um sinal com a cabeça. Kasim deu outro soco no estômago do Dabir, então outro no rosto. Só então soltou seus cabelos. Quando o homem caiu de lado, o mercenário ergueu a perna para dar-lhe um pisão no joelho e quebrá-lo.
- Foi seu irmão! - gritou o Dabir, desesperado. - Seu irmão traiu Najmal!





*


A festa já havia começado quando o sol desaparecia nas montanhas, deixando o céu com um tom avermelhado lindo. As primeiras estrelas surgiam no lado oposto do céu, abençoando aquela noite que terminaria apenas quando a Estrela da Manhã surgisse no céu logo antes do retorno do sol.
O Dabir agradecia a senhora Hadya pelo excelente banquete preparado para aquela noite quando ouviu a voz de Apiyo elevar-se sobre a música da flauta acompanhada de percussão. Avistou os dois irmãos gêmeos atrás da barraca de jogos, onde algumas crianças disputava uma batalha de peões coloridos.
Como de costume Odongo era o sorridente, falando baixo, tocando o irmão no ombro, rosto e peito enquanto falava, como se tentando acalmar uma fera. Apiyo era o completo oposto, sério, gesticulando e falando alto, mais de uma vez dando um passo para trás ou mesmo dando um tapa na mão do irmão que ousava tocá-lo.
Como na maioria das vezes a discussão terminou com Odongo dizendo algo que ia além do limite para Apiyo, que jogava os braços para cima e ia embora pisando duro.
Odongo fez como quem ia atrás, talvez dessa vez percebendo que irmão estivesse mais irritado que o normal, ou que o assunto fosse sério demais para ignorar. Então as crianças da barraca vieram até ele, exigindo que ele enfrentasse o atual campeão. Diziam na vila que ninguém era melhor que Odongo com peões, fosse esculpindo-os ou derrotando-os em batalha. Odongo chegou a olhar uma última vez por cima do ombro antes de Apiyo desaparecer entre duas casas.
Talvez o que Apiyo precisasse era de alguém neutro, alguém em quem confiasse e que visse como um adulto responsável. Odongo não se encaixava em nenhuma dessas características.
O Dabir agradeceu a senhora Hadya pela comida, deixando para trás algum do delicioso cuscuz. Talvez tivesse a oportunidade de voltar mais tarde, caso Odongo não escapasse às crianças primeiro e acabasse com tudo.
Não era difícil imaginar o caminho que Apiyo tomara. Desde pequeno, após uma briga com o irmão, Apiyo ia até o topo da colina na entrada da vila. Em mais de uma ocasião o Dabir encontrara-o por lá, admirando a vastidão verde do Vale que a Estrela da Manhã os deu.
Só que, quando chegou lá, encontrou Apiyo acompanhado.
O Dabir parou onde estava, na cobertura do antigo entreposto comercial, fechado para a temporada. Na penumbra do entardecer não conseguia ver bem quem era o outro, mas não tinha como ignorar a postura de Apiyo. Falava baixo, olhava constantemente por cima do ombro, tenso. Em um desses movimentos saiu o suficiente da frente do outro para que a luz de uma tocha refletisse no metal da armadura do sujeito.
O Dabir sentiu o coração gelar.
Apenas um exército tinha oficiais usando aquele estilo de armadura.
O do Império de Diamante.
Apiyo deu uma última olhada por sobre o ombro, apontando locais onde o soldado poderia acessar a vila sem ser visto. Apontava, também, na direção das cavernas onde o irmão preparara o esconderijo.
Estava vendendo Najmal e a própria família ao inimigo.
O Dabir não pensou. Saiu das sombras.
- Apiyo, não acredito...
Apiyo saltou, assustado. Pálido, movia a boca para falar algo, mas demorou para conseguir pronunciar alguma coisa.
- Professor? O senhor não deveria estar aqui.
O Dabir suspirou profundamente. Colocou as mãos em prece sobre a boca para impedir-se de dizer algo profano. Olhou para o céu, pedindo forças.
- Seu desespero é assim tão superior à sua fé na Estrela da Manhã para vir negociar com o demônio?
Atrás do jovem o soldado deu um passo para o lado, cerrando os olhos na tentativa de ver na penumbra.
- Quem é este?
- Eu sou o Dabir desta vila, e pode avisar a seus senhor que recusamos sua oferta.
Foi a vez do soldado empalidecer.
- Um dabir? Você trouxe um dabir com você?
- Não, não! Eu não o trouxe. Ele deve ter me seguido!
- Desgraçado!
O som da espada deslizando para fora da bainha fez eriçar os pelos do braço do Dabir. Ele ergueu a mão, abriu a boca para explicar-se. Parou para pensar na melhor palavra, o que talvez tenha selado o destino de Apiyo.
O soldado segurou Apiyo pela gola da túnica com uma mão enquanto perfurou seu estômago com a outra. Por trás o Dabir viu a lâmina brotar na base das costas junto com uma mancha de sangue que se expandiu rápido no tecido azul claro. Apiyo soltou um suspiro de surpresa, então desmontou no chão quando a espada foi puxada para fora.
O Dabir saltou na direção de Apiyo, tentando deter sua queda, como se fosse ela o perigo à sua vida. O soldado deu dois passos atrás, olhos arregalados, como se surpreso ou apreensivo.
Apiyo tossiu e gemeu. Empalideceu rápido, com medo e perda de sangue. As mãos buscaram o ferimento no estômago, e Apiyo chorou ao perceber o sangue borbulhando para fora.
O Dabir ajoelhou-se ao seu lado e puxou o jovem para seu colo, fazendo som com os lábios como se silenciando uma criança nervosa. Colocou a mão sobre o ferimento, mesmo sabendo que era em vão. Podia sentir mais sangue saindo pelas costas e escorrendo no seu colo. Não sabia o que dizer, então apenas o abraçou, segurando suas mãos, tocando sua testa quente na de Apiyo.
A lâmina ensanguentada surgiu diante do rosto do Dabir.
- Não me force a fazer o mesmo com você, Professor.
Naquele momento de desespero o Dabir não parou para pensar em como o soldado o chamou, nem o olhar de medo em seu rosto. Concluiu apenas que os soldados do Império ouviam mentiras a respeito dos poderes de um Dabir e temesse o que o homem abraçado ao traidor moribundo pudesse fazer.
- Você... - o soldado começou a dizer antes de se deter, incerto. Respirou fundo e continuou. - Você selou o destino desta vila. Agora precisaremos matar a todos.
- Por favor, já houveram mortes o suficiente para um dia. Somos uma vila pacífica. Nem sequer temos guerreiros.
O soldado riu, como se lembrando algo triste e inevitável.
- Todos são guerreiros quando não existe escolha. Basta uma arma e o medo de morrer.
Em seu colo Apiyo respirava mais fraco na medida em que seu sangue se esvaia por ambos os cortes. As vestes do Dabir e o chão da rua já estavam empapados. Mesmo assim, a morte não viria rápido para Apiyo. Aquele tipo de ferimento poderia levar horas, mesmo dias de sofrimento para matar.
- Deve haver uma alternativa.
- Era isso que tinha vindo negociar com seu amigo. Agora é tarde.
- Você não pode matar a todos nós.
- Nem podemos deixar vocês vivos. Não agora que sabem de nós.
- Deve haver uma forma de garantirmos que jamais seremos um perigo para vocês.
O soldado desviou o olhar para longe, onde talvez outros soldados aguardavam o sinal para atacar. Os olhos permaneceram na escuridão por um longo tempo antes que ele concordasse com a cabeça.
- Vamos, - ordenou o soldado, acenando com a ponta da espada para que o Dabir se levantasse.
Mas o sacerdote se recusou. Não podia deixar Apiyo ali sofrendo.
Com cuidado, tirou-o do colo e colocou-o no chão. Cruzou seus braços sobre o peito, então fez o sinal da Estrela e colocou a mão sobre o rosto de Apiyo. Tampou-lhe o nariz e a boca enquanto rezava.
Levou alguns momentos para que Apiyo começasse a reagir, chacoalhando o corpo, tentando alcançar o rosto com as mãos. Mesmo fraco, por instinto agarrou as mãos do Dabir e tentou puxar. Os olhos se arregalaram, percebendo o que estava acontecendo. As coisas apenas se tornariam piores se Apiyo conseguisse se libertar.
O soldado se ajoelhou, colocando a espada no chão. Pegou os braços de Apiyo e forçou-os para baixo, fazendo peso sobre seu peito com o joelho, para que parasse de se mexer. O Dabir percebeu que o soldado rezava junto com ele.
Os olhos de Apiyo foram de um para o outro, desesperados. Começou a piscar cada vez mais lentamente, os olhos rolando, desfocados.
Então finalmente se fecharam.
O Dabir manteve as mãos sobre o rosto do jovem que vira crescer e ensinara sobre perdão e fé até que tivesse certeza que estava morto. O soldado soltou-o antes, levantando-se, a espada novamente na mão. A esta altura o Dabir podia apenas pedir à Estrela que Odongo encontrasse o corpo e o enterrasse da forma apropriada, para que sua alma se juntasse à Estrela e seus ancestrais no céu.
- Saia daqui.
O Dabir não encarou o soldado que falava. Não conseguia tirar os olhos do sangue em suas mãos.
- Eu disse saia antes que eu me arrependa disso.
A ponta da espada tocou o ombro do sacerdote, fazendo-o despertar do torpor. Levantou-se, olhando para o soldado. Olhou por cima do ombro na direção do centro da vila, onde a música podia ser ouvida.
- Não posso partir e deixá-lo matar a todos. São meus filhos, todos.
Recusou-se a olhar para o corpo no chão.
- Ouça, Professor, se o senhor não for embora agora, eu matarei todo mundo.
- Então eu parti, sem nem olhar para trás, - disse o sacerdote, caído no chão do quartinho nos fundos do Segunda Chance. - Só fui saber do que aconteceu muito tempo depois, quando chegaram refugiados à Mahrus, logo antes da fuga do Vale. Pensei só que, se eu fosse embora, ninguém sofreria.
- Você está mentindo.
Odongo levantou-se, deixando o banquinho cair para trás. Foi a passos largos até o prisioneiro e chutou-o no estômago.
- Está mentindo! - gritou, e deu um pisão ele mesmo. Errou o joelho, mas acertou a coxa já machucada do Dabir.
O Dabir gemia de dor, mas não chorava mais. O rosto estava sujo de sangue, lágrimas e terra. Já não tinha mais o que chorar. Parecia além do desespero.
Cuspiu no chão - talvez estivesse tentando cuspir em Odongo -, e forçou-se a se sentar, desafiador. Kasim não o impediu. Estava silencioso, pensativo. O Dabir pareceu ganhar força com isso, sentindo-se em posição de retrucar.
- Por acaso alguém tomou a vila depois do ataque? - perguntou o Dabir à Odongo. - Você viu algum sacerdote do Império de Diamante vir e converter quem permaneceu na vila? Exigir que trocassem sua fé?
Odongo franziu a testa. As memórias da festa eram frescas, mas a dos dias seguintes, nem tanto. Odongo e alguns outros homens foram feitos prisioneiros. Foram feitos de exemplo, uma ameaça ao que aconteceria se Najmal não recebesse de braços abertos seus conquistadores imperiais. Então os soldados partiram, deixando Najmal a espera de uma invasão que jamais chegou. Pouco tempo depois quem podia partiu. Alguns vieram para a Costa Livre, outros foram ao esconderijo na caverna. Muitos sumiram no mundo para nunca mais voltar.
Quando os últimos focos de resistência no Vale deixaram de existir, o Império de Diamante chegou, mas nunca se estabeleceu. Najmal ficou esquecida como a pequena vila de pescadores e bordadeiras que era.
Odongo deu dois passos para trás, pensativo.
- Isso não quer dizer nada.
O Dabir riu. Sem boa parte dos dentes, o som era silvado.
- Claro que diz! Eu jamais venderia minha fé ou suas vidas para um demônio que se pensa deus!
Não venderia? Onde estava ele, então, enquanto saqueavam a vila? Onde ele estava quando os soldados decepavam as mãos de uma dúzia de jovens no meio de uma festa? O Dabir sumiu aquela noite, provavelmente levando com ele uma bolsa cheia de prata.
Odongo lembrou-se do maltrapilho que Kasim trouxe à taverna, pouco mais que um mendigo. O que ele teria feito com sua propina?
O taverneiro balançou a cabeça para tirar dela qualquer dúvida. Sem olhar o prisioneiro, gesticulou.
- Chega! Kasim, mate esse desgraçado!
Mas não veio o som de uma espada sendo desembainhada, nem da lâmina na carne. Não veio grito, não veio um pedido de clemência. Nada.
Odongo voltou-se para o mercenário e o prisioneiro.
Kasim olhava intensamente para o Dabir. A mão no cabo da espada relaxou e foi ao lado do corpo. Soltou também a mão que segurava a bainha.
- Talvez seja minha vez de contar uma história.
Odongo riu, achando que era piada. Deu quatro passos largos na direção do mercenário, até estar bem perto dele. Olhou para cima, bem nos olhos de Kasim, falando entre os dentes.
- Isso não é hora para histórias! É hora de justiça!
Kasim suspirou, concordando com a cabeça.
- Exatamente. - Ele se afastou dos dois e foi até a parede atrás dele. Encostou-se lá - É por isso que vou contar o que eu sei sobre tudo isso.
- Você? Você nem sequer sabe onde fica Najmal.
O mercenário deu de ombros. Coçou a barba rala no pescoço.
- Sei sim. E sei mais. Sei que não foi o Dabir que traiu sua cidade. E sei que não foi o Império de Diamante que decepou suas mãos.


*


- Capitão, se nós ficarmos, vamos todos morrer.
O tom da voz de Ghadil era quase histérico, como se ele não fosse um homem experiente em tantas batalhas. Debruçava-se sobre a mesa no alto da torre da capital do Vale como se precisasse disso para não desmoronar. Pingava suor da cabeça raspada, que enxarcava a barba espessa. O que escapava pingava no mapa sobre a mesa.
Kasim observou do outro canto da sala onde se aninhou após seguir Ghadil desde a entrada do acampamento. Ghadil nem sequer tinha tirado a armadura ou a capa de viagem. Provavelmente teria subido as escadarias da torre de cavalo se não fossem tão estreitas.
Do lado oposto da mesa o capitão o observava com olhos letárgicos, quase fechados na mistura de cansaço físico e psicológico. Parecia prestes a jogar tudo para cima e ir embora.
- Não é exatamente uma escolha, caso você não tenha percebido. Fomos pagos para isso.
Ghadil deu um tapa na mesa, lançando uma cascata de suor sobre o desenho do Vale e derrubando as peças que marcavam a posição das tropas.
- Para lutar, não para morrer! Não há como salvar a capital!
- Não é nisso que nossos contratantes acreditam.
Deu outro tapa na mesa e se afastou. Passou as costas do antebraço na testa para limpar o suor e a poeira da estrada. Tinha acabado de voltar de um reconhecimento a Nordeste da capital, onde encontrava-se a frente da invasão do Império de Diamante.
- Eles são fanáticos! - Gritou, apontando pela janela como se os culpados estivessem bem ali. - Jamais aceitariam que a batalha está perdida! E vão mandar cada um de nós contra o Império se acharem que precisam! E nós vamos morrer!
- Não estou vendo Kasim choramingar desse jeito.
Kasim deu de ombros.
- Eu apenas sou mais discreto, - ele disse. - Por dentro estou aos prantos como uma criancinha.
O capitão bufou, balançando a cabeça. Forçou-se a se levantar da cadeira, o que parecia ser um esforço impossível. Pegou as peças derrubadas pelo surto de Ghadil e as recolocou em seu lugar no mapa. Parou para pensar sobre uma delas, então largou-as todas à esmo.
- E o que vocês sugerem, então? Ou vieram até aqui só para me arrumar mais preocupações?
Nenhum dos dois falou coisa alguma. Entreolharam-se sem bem saber o que dizer.
O capitão sabia que Kasim e Ghadil já tinham conversado sobre isso antes. Eram os dois tenentes na companhia, e certamente planejavam pelas suas costas do mesmo jeito que o próprio capitão o fez antes do seu antecessor morrer com uma flecha na garganta um ano antes.
Dois meses atrás tinham recebido ordens de abandonar a última cidadela e recuar para a capital, mas não antes de um pelotão sob o comando de Kasim ter de enfrentar as hordas do imperador durante a retirada dos dabires de um palácio mais ao norte. Kasim viu por conta própria quando um dos imortais do imperador fez a população da vila local esquecer suas crenças e erguer-se em armas contra os dabires. Precisou apenas de um gesto.
O retorno de Ghadil apenas confirmava seus medos.
Ghadil voltou a andar de um lado para o outro. Batia agitado com seu amuleto da Estrela da Manhã na armadura roubada de um nobre do império, produzindo um tilintar incessante.
- Deve haver uma alternativa.
Kasim caminhou até ele e segurou sua mão, para que parasse com o som irritante.
- Talvez oferecer um alvo mais interessante ao Império? Seja ele real ou não. Isso pode nos dar tempo para reagrupar as companhias do norte e preparar as defesas da capital.
- Duvido, - disse o capitão, os olhos no mapa. - Em todas as conquista do Império em séculos os desgraçados sempre foram direto para a capital, como uma leoa na jugular de um antílope.
- E se fizermos o contrário?
Tanto o capitão quanto Ghadil voltaram a atenção à Kasim.
- Como assim?
- E se convencermos os dabires que o Império atacará outro lugar? Eles podem deslocar nossa companhia para lá, para proteger tal lugar. Ficaríamos longe do massacre.
O capitão riu, debochado.
- E danem-se as outras companhias.
- É cada um por si, Capitão, - disse Ghadil, não parecendo nem um pouco culpado por isso.
- E o que você sugere?
Kasim foi até a mesa. Pegou uma peça qualquer das descartadas pelo capitão. Procurou algo no mapa, ao sul da capital.
- Escolhemos uma vila qualquer, algo pequeno e insignificante. Damos um susto neles, espalhamos rumores, talvez queimemos algumas casas vazias. - Jogou a peça no mapa, bem na área aberta do vale entre a capital e a costa sul, repleta de montanhas. - Fazemos tudo isso fingindo sermos uma patrulha avançada imperial. Um de nós chega com a notícia, dizendo que tropas imperiais foram avistadas dando a volta na capital. Aposto que os dabires nos mandarão para lá, para guarnecer a vila e segurar a linha contra a invasão que nunca virá.
O capitão foi até a janela da torre. Podia ver a fumaça negra onde a última cidadela entre o Império e a capital estava sendo tomada naquele momento. Ficou por lá por um longo tempo.
Os tenentes entreolharam-se, e Ghadil fez um sinal para que Kasim fizesse alguma coisa. O que ele esperava? Que ele apunhalasse o capitão e tomasse o comando?
- Escolham uma vila nesta área, - disse o capitão. - Evitem matança. Isso poderia causar problemas maiores ainda. Tentem usar o medo dos nativos.
Não era o momento para pensar na imoralidade dos seus atos. Era o momento de agir para salvar a própria pele.
Mas Kasim concordou com a cabeça.
- Talvez possamos encontrar alguém disposto a ajudar. Alguém que goste da ideia de uma companhia inteira guarnecendo a vila.
- Por isso eu gosto de você, Kasim. - O capitão virou-se da janela, encarou os dois tenentes e bateu as palmas das mãos. - Peguem alguns homens, não mais que uma dúzia. E cavalos. Vocês precisam agir rápido para que sua ausência não seja notada. Mãos à obra!
Eles o fizeram. Um dos batedores deu a dica sobre qual cidade usar como bode expiatório. Naquela mesma noite Ghadil encontrou Apiyo sentado nas pedras na entrada da vila, reclamando do irmão e dos riscos da cidade ser atacada. Era exatamente a pessoa que eles precisavam.
- Seu irmão não ia vendê-los ao Império. Ia nos ajudar a fingir que o Império estava na região.
No chão aos pés do mercenário o Dabir olhava o nada, a boca inchada aberta, incrédulo. Balançava a cabeça.
- A alternativa dele não era rendição.
Kasim concordou.
- Era convencer todo mundo que sua vila precisava de uma guarnição.
Odongo deixou-se cair sentado no chão. Não conseguia falar, não conseguia xingar, não conseguia brigar. Simplesmente caiu e ficou ali, sentado, meio torto, a boca murcha, os olhos inchados de lágrimas.
O Dabir olhou para cima, para encarar o mercenário.
- Por isso ele me chamou de professor. Por isso temia me ferir. Ele era devoto da Estrela.
Kasim concordou com a cabeça.
- Muitos de nós éramos. Talvez por isso tenha deixado-o fugir. Nunca mais falamos sobre aquela noite depois do fato.
Silêncio caiu sobre o quartinho nos fundos do Segunda Chance, deixando os três imersos em suas culpas.
Kasim olhou o dabir, o homem que ele amou como um pai por metade de sua vida, que odiou como traidor pela outra. Subitamente não estava mais tão furioso com ele. Esse sentimento tinha outro dono.
- Você escondeu isso de mim.
Kasim suspirou. Não tinha tirado a mão do pomo da espada.
- Eu nunca soube que era sua vila.
Odongo fez um som com os lábios, desmerecendo a afirmação.
- Você sabia que eu vim de Najmal.
- Você acha que eu tinha ideia do nome daquela vila? - O mercenário balançou a cabeça. - Duvido que qualquer um de nós sabia. Vocês eram só uma desculpa.
Só uma desculpa. Uma cidade qualquer que por azar estava no lugar errado, que um batedor qualquer que provavelmente já morrera avistou em seu caminho. Fazia Odongo questionar a quem a Estrela da Manhã tinha iluminado aquele dia: o batedor que avistou Najmal, o capitão que deu permissão ou o mercenário que deu a ideia. Ou talvez tenha sido o próprio Odongo, que insistiu na festa. Se não tivessem a festa, talvez tivessem avistado os soldados a tempo.
Odongo ergueu os braços diante do rosto, observando os cotocos que restaram das mãos decepadas. As cicatrizes físicas tinham curado muito antes da psicológica.
Os olhos desviaram-se para a espada do mercenário.
- Me diga uma coisa, Kasim. Você decepou alguma mão?
O mercenário nem parou para pensar na resposta.
- Naquele dia? Não.
Odongo não sabia bem como reagir àquela resposta. Kasim pareceu incomodado com o silêncio, então continuou.
- Naquela noite eu fiquei longe da vila, de sentinela, caso alguém aparecesse. Eu vi uma pessoa fugindo da vila. Não dei importância àquilo.
- Então você o viu. Sabia que era o mesmo homem.
Kasim negou com a cabeça.
- Está mais velho agora, sem a barba, acabado. Se soubesse que era um dabir, talvez nem sequer aceitasse o contrato. Prefiro não me envolver mais com religião alguma.
- Mas não vê problema algum em mutilar pessoas inocentes.
- Eu não... - Kasim se deteve. Então buscou algo em seus trajes. Pegou uma pequena bolsa de moedas de dentro da túnica sobre o corselete de couro e jogou-a aos pés de Odongo. O taverneiro reconhecia o pagamento adiantado que dera ao mercenário.
- Ficamos por isso mesmo.
Odongo riu, incrédulo.
- “Ficamos por isso mesmo,” - ele repetiu e riu novamente.
- Você vai fazer o quê? Colocar veneno na minha comida? Mandar alguém me matar durante a noite?
Poderia. Não seria difícil conseguir alguém que o fizesse, pelo valor certo. Talvez alguns morressem tentando. E esse era o ponto. De que adiantava tantas perdas inúteis para punir uma pessoa por um erro de vinte anos atrás? Kasim deu a ideia, mas não disse nada sobre mortes e mutilações.
- Segunda chance, - Odongo finalmente disse, forçando um sorriso.
Kasim concordou com a cabeça, como se estivessem conversando trivialidades.
- E ele?
O Dabir estava ainda caído no chão. Abraçava o próprio corpo magro e ferido, o olhar perdido em pensamentos sobre o que descobrira aquela noite.
- O que tem ele?
- Ele não é homem que você quer. Este homem já morreu vinte anos atrás, seja ele seu irmão ou Ghadil.
Odongo bufou. Passou o cotoco da mão na nuca suada.
- Não era isso que eu esperava...
- Se isso te serve de consolo, Ghadil morreu depois de oito dias de febre alta e alucinações com uma infecção após uma amputação malfeita.
Odongo forçou um sorriso, mas balançou a cabeça.
- Não, não serve. Eu nem sequer vi o rosto dele.
- Não perdeu muita coisa. Então? Largo ele em algum beco?
O Dabir olhava de um para o outro. Pela primeira vez desde que entrava naquele lugar havia um brilho de esperança naqueles olhos.
Odongo balançou a cabeça.
- Eu não posso deixar isso passar. Tenho uma reputação a zelar.
Kasim deu de ombros.
- Ninguém sabe sobre isso, - disse. - E, afinal de contas, o nome desse lugar não é Segunda Chance?
- Sentindo-se culpado, mercenário?
- Culpa não combina com a minha linha de trabalho.
- Eu não posso deixá-lo ir sem uma punição. Ele daria com a língua nos dentes em pouco tempo.
- Eu sumirei daqui. Partirei da cidade. Partirei de Myambe!
- Cale a boca, seu velho bêbado. Você não tem dinheiro nem para um banho, muito menos para uma viagem de navio.
Kasim balançou a cabeça e cruzou os braços.
- Eu não o matarei, e não acho que você consiga fazê-lo.
Odongo imitou o mercenário.
- Então estamos num impasse.
- Só me deixe ir. Eu digo o que você quiser que eu diga.
Odongo lembrou-se dos dias após ter as mãos amputada. De achar que sua vida tinha sido destruída para sempre. Então foi forçado a tentar, e acabou construindo algo novo.
- Eu o deixarei ir, sim, mas não desse jeito. Quero ajudá-lo a ter uma segunda chance como eu tive um dia.
- Como?
- Kasim, você disse que já fez isso antes.
Kasim levou alguns segundos para entender ao que Odongo se referia. Quando compreendeu, torceu os lábios e concordou com a cabeça.
- Justo.
Kasim sacou a espada.
- Você disse que não ia me matar!
- E não vou.


*


Era assim pelo menos uma vez por mês no Segunda Chance. Os clientes se empolgariam com o vinho de palma, começariam a contar meias verdades sobre suas habilidades como mercenários, caçadores de recompensas e ladrões, então alguém invariavelmente mencionaria a guerra, e o salão ficaria em silêncio.
Um dia alguém falou sobre um velho bêbado que pregava a palavra da Estrela da Manhã no porto. Gritava para todos que queriam e não queriam ouvir sobre como perdeu a fé e entregou-se a vícios, até que, no momento mais inesperado, foi iluminado.
Ninguém o levava a sério se não fosse pelo o que ele dizia.
Que diante da morte tinha recebido uma segunda chance.
Então fazia o sinal da Estrela da Manhã com a mão esquerda, pois a direita pendia apodrecida em um cordão sobre seu peito.

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